365 dias…

1Durante mais de uma década trabalhei no serviço de pediatria do IPO de Lisboa. Durante esse tempo habituei-me ao arregalar de olhos e à pergunta recorrente “como é que consegues?”. E de todas as vezes dava a mesma resposta: “oncologia é mesmo assim, ou se ama ou se odeia.” Não direi que amava mas gostava, e muito, e ainda gosto. Mas na nossa vida por vezes chega a hora de deixar para trás o que consideramos ser seguro (por mais subjectivo que isso seja) e temos de partir. E esse momento chegou para mim há 365 dias…

Quando penso na pediatria penso com saudade mas com tranquilidade, porque sinto mesmo que o meu tempo naquele serviço terminou. Não olho saudosa para as fotografias nem reflicto lamuriosa sobre o passado, em vez disso consigo recordar e sorrir (tomara que fosse assim com tudo o resto) sobre o que vivi naqueles longos corredores, com aqueles meninos e pais, com os colegas e todos aqueles com quem me cruzei nestes anos todos.

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De certa forma eu já fazia parte da mobília. Aqueles corredores eram-me familiares como a minha própria casa (penso, até, que foi onde passei mais tempo), sabia de cor onde ficavam os quartos e conseguia ir às escuras até aos locais mais recônditos, como a unidade de isolamento. Atravessei várias obras, fui várias vezes desterrada para o 4º e 6º andares quando uma das alas era encerrada (e, ao contrário de muitas colegas, gostei. Tantas foram as noites que passei a ver a “Anatomia de Grey” que agora, de cada vez que ouço o genérico, recuo no tempo e volto a estar fechada entre cortinas, paredes meias com pais e crianças, enquanto os earphones despejam aqueles acordes tão familiares), passei lá muitos natais e algumas passagens de ano e era de tal modo familiar aquele ambiente que era natural fazer um desvio até à copa e tirar uns quantos flocos de chocapic que se iam mastigando a caminho da sala de trabalho.

Consigo recordar com um sorriso os filmes que víamos durante as noites, e sou do tempo (ai, ai) em que só tínhamos rádio para passar o tempo. Depois veio a TV (sempre 24 horas ligada), o vídeo e depois o DVD; os computadores ocuparam o centro da nossa mesa (e da nossa vida) e sentimos na pele a febre do messenger e do facebook: de repente a conversa passou a ser sobre semear e colher alimentos, tratar dos animais e criar verdadeiras obras de arte em quintas virtuais. Estava aberta a moda da farmville e toda a gente era vizinho de toda a gente, falando de colher tomates como quem falava de ir às compras. E como todas as modas até essa se desvaneceu, dando lugar ao candy crush, ao pinterest, instagram e outras tantas redes sociais. Passar o turno com a internet ligada passou a ser um habituée (o que exasperava algumas pessoas. E às vezes a mim também).

4Assisti a muitos casamentos, acompanhando as noivas na sua ansiedade pré matrimonial de preparativos e muitas dores de cabeça. Fiz parte da Comissão Organizadora de Prendas de Grande Porte que se ocupava em reunir dinheiro para oferecer a noite de núpcias aos noivos; vi nascer muita criança, sobrinhos emprestados que continuo a ver crescer, embora longe; vi namoros começarem e acabarem entre muita choradeira e tristeza; vi dietas iniciadas, interrompidas, reiniciadas; fui ouvinte paciente de muitas confindências e de notícias bombásticas sussurradas em segredo…

5 Tivemos ceias memoráveis compostas de frango assado, batatas fritas, coca colas e doces, muito doces.

Até na copa se assou chouriço em álcool num porco de barro que se deve ter perdido no tempo e nas obras.

Quem nos quisesse ver felizes era à volta de uma mesa, partilhando saborosas iguarias entre conversa e gargalhadas.6

 

 

 

Festas de anos, jantares de Natal, despedidas de solteiras, todas as razões eram boas para festejar em conjunto.

789Com o passar do tempo vieram as festas de anos infantis e, pouco a pouco, as saídas foram começando a rarear, fosse porque a vida não o permitisse entre horários sobrecarregados e sobrepostos, porque os deveres parentais a isso obrigavam ou porque a crise económica o impedisse. Disso tenho saudades… daquelas saídas em conjunto em que se comia até não se poder mais e se ria até às lágrimas, das conversas intermináveis, dos desabafos, da irritação que nos fazia fumegar em conjunto (“não estamos a falar mal, estamos só a desabafar”), das idas ao cinema depois de uma tarde, dos almoços antes de ir trabalhar, daqueles pequeno-almoços intermináveis depois dos turnos da noite. Que saudades do bar, com aquelas torradinhas em pão caseiro ou do pãozinho quente acabado de sair do forno com queijo fresco, do galão ou do sumo de laranja, das empadas de galinha… e da conversa, principalmente da conversa, mesmo aquela ensonada antes de nos dirigirmos para o carro para voltarmos para casa, para ir dormir. 10

Penso que disso guardei o melhor para mim, porque quando volto a Portugal é sempre uma razão para estarmos novamente juntas, tornando-me de novo a ouvinte paciente enquanto todas ventilam a sua irritação à minha volta, rindo de novo até chorar, sabendo das novidades de quem deixei de ver. Pouco a pouco as notícias vão enfranquecendo… é mesmo assim, as distâncias criam as suas regras incontornáveis e dia após dia a nossa realidade vai-nos afastando. Continuamos a falar a mesma língua mas já não nos entendemos tão bem: as private jokes tornaram-se mesmo privadas e perco o fio à meada quando ouço o que se passa; deixei de conhecer algumas enfermeiras porque no último ano muitas que conheci saíram para outros serviços ou outros países, e deixei de perceber o que se passa quando leio alguns comentários nas redes sociais.

DSC_0465Com algumas o contacto mantém-se pois as tecnologias são do melhor que há nestes tempos modernos: Whatsapp, e-mail ou skype, continua a haver um fio condutor que nos une mesmo estando consciente que esse fio poderá enfraquecer. Porque eu já não pertenço ao mundo do IPO e o meu mundo tornou-se distante e algo romântico. Sou a protagonista improvável de aventuras, falando numa língua diferente, se bem que compreensível para todos; sou aquela que deixou o sol procurando algo a mais de 1500km de distância; sou a chefe de equipa que deixou de o ser, para sê-lo novamente numa outra pediatria; sou alguém que passou a ver o Big Ben de forma rotineira mas deixou de ter praias de areia fina ao seu alcance; alguém que deixou de ter torradas e passou a ter scones, que trocou o lanche pelo afternoon tea e os turnos de 8 horas pelos de 12.

Mas espero que saibam que mesmo longe, falando uma outra língua e vivendo uma outra realidade, há momentos que permanecerão muito nossos e nos unem. E que mesmo a mais de 1000km de distância, vivendo numa terra de princípes e princesas em que a rainha tem o mesmo nome que eu, serei sempre uma ouvinte paciente e o meu coração terá sempre um cantinho para todas. E quando voltar a portugal, sempre que voltar, espero ver o vosso sorriso, ouvir a vossa voz e partilhar alguns momentos que fazem da nossa vida aquilo que ela foi/é.

polónia;mónica;relaxamento 100

 

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