Ouvir as palavras…

Quando for velhota, se o chegar a ser, devo acabar corcunda. Não por andar sempre de cabeça baixa a olhar o chão ou vergada pelo peso da vida, mas por andar muitas vezes com o nariz enfiado num livro.

Sabem quando as palavras de um livro parecem reunir-se e começam a chamar por nós? Quando as letras parecem notas de música e nos seduzem como faziam/fazem as sereias? Não nos largam, acompanham-nos para todo o lado e fazem-nos esquecer o que nos rodeia: de repente estamos noutro mundo, noutra dimensão da qual temos dificuldade em sair pois é tão mais interessante que a nossa vida tantas vezes previsivel e rotineira. Um toque para nos despertar sobressalta-nos como se tivesse sido um choque eléctrico, uma palavra suave não chega para nos despertar e sorrimos, ou choramos, por razões aparentemente desconhecidas.

E tudo o vento levou” foi um desses livros, em que me perdi no Sul dos Estados Unidos com Scarlett O’Hara e Rhett Butler durante a guerra de secessão; no “Cavaleiro de bronze” sofri com Tatiana e Alexander durante a segunda guerra mundial, quando os alemães cercaram a cidade de S. Petersburgo (na altura Leninegrado); com “O historiador” percorri a Europa de leste durante a guerra fria à procura do drácula num clima de suspense, terror e romance, fazendo companhia a Helen e Paul através dos anos e da história; fiquei perplexa com a ausência aparentemente inexplicável de “Rebecca” e senti a sua presença em Manderley; eterneci-me com Elizabeth Bennet e apaixonei-me pelo charmoso, mas preconceituoso Mr. Darcy; vivi a magia de Harry Potter em sete livros e acompanhei a irmandade do anel até Mordor (com alguma dificuldade inicial no primeiro livro, admito) e com Liesel, Rudy, Max e os Huberman vivo agora na Alemanha da segunda guerra, sentindo as agruras de um tempo que marcou cruel e indelevelmente o mundo.

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Há outros, claro, muitos outros… ler de enfiada as aventuras de Robert Langdon e correr com ele em Paris, Roma, Washington e Istambul (sim, correr, pois as suas aventuras parecem durar o tempo de uma respiração); ir com Daniel na “Sombra do Vento” até ao cemitério dos livros esquecidos numa Barcelona mágica, misteriosa e, por vezes, tenebrosa; correr com “Oliver Twist” pelas ruas de uma Londres suja e escura da revolução industrial; correr o mundo com a família Henry ouvindo os “Ventos de Guerra” contarem histórias de amor, traição e sofrimento; vingar-me com “O conde de Monte Cristo” daqueles que o fizeram sofrer injustamente e pintar cercas com Tom Sawyer nas margens do Mississipi.

E, depois de tanto ler, viajar nas asas das histórias, imaginar e sonhar, ser capaz de identificar alguns títulos de livros apenas pelas primeiras frases. Porque há palavras que se reconhecem pelo eco que fazem na nossa memória, sejam em que língua for…

“Call me Ishamel.”

“It is a truth universally acknowledged, that a single man in possession of a good fortune, must be in want of a wife.”

“It was the best of times, it was the worst of times…”

Last night I dreamt I went to Manderley again.”

“All children, except one, grow up.”

“I still remember the day my father took me to the Cemetery of Forgotten Books for the first time.”

“Mr and Mrs Dursley, of number four Privet Drive, were proud to say that they were perfectly normal, thank you very much.”

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