Happy New Year!

IMG_6703Sem nunca ter ligado muito ao ano novo há, no entanto, algo que eu me obstino em fazer cumprir: na passagem de ano não quero estar a trabalhar!! Nos muitos anos de trabalho fiz muitas, mas mesmo muitas, noites de Natal mas de ano novo apenas uma! Não alinho na pressão social de ter de me divertir mesmo que não me apeteça mas passar no hospital deixa-me desconfortável. E eu sei que quem está doente está pior, eu sei!!! Mas eu não estou e não podemos passar o tempo a comparar a nossa vida com quem está pior. Nem com quem está melhor! A nossa vida é a nossa, seja ela boa, má ou mais ou menos.

238Mas sendo de poucas folias sempre disse a mim mesma que se fosse para comemorar então que o fizesse em grande e os meus planos passavam por festejar perto do Big Ben, Torre Eiffel ou Times Square. Nunca aconteceu, fiquei sempre por ambientes mais caseiros.

No ano passado fomos a Primrose Hill que oferece uma panorâmica da skyline de Londres e de onde se consegue ver o rio e o London eye. Chovia e a quantidade de gente à nossa volta era tanta que vi apenas o topo do fogo de artíficio. Deu para festejar, claro, mas depois ficámos decididos a ir até à margem do rio na próxima passagem de ano.

E assim fizemos.

IMG_6753A meio do ano as regras mudaram e de um evento absolutamente livre com quase meio milhão de pessoas na passagem de ano 2014-15 passou para algo mais controlado com a venda de bilhetes limitados a três entradas diferentes (North 1: Westminster, Trafalgar Square Entrances; North 2: Savoy Street & Surrey Street Entrances e South: Westminster Bridge e Belvedere Road Entrances) e muitas regras a cumprir:

no glass may be brought into the event viewing areas (passagem de ano sem champanhe? Nem pensar!! Esvaziámos uma garrafa de vidro para dentro de outra de plástico e acompanhámos com flutes de plástico)

Alcohol may be permitted in small quantities in plastic bottles (tudo bem, queríamos divertir-nos não embebedar-nos)

do not bring any fireworks, including sparklers (houve fogo de artificio de sobra)

IMG_6628 IMG_6696the event is not suitable for small children; please do not bring buggies into the event (vimos dois carrinhos e nada mais. Algumas crianças, mas poucas, e dormiram no colo dos pais até à meia noite)

no chairs or tables will be permitted (mesas? O chão serviu perfeitamente para os nossos comes e bebes. Na falta de pequenos confortos resta a improvisação e a alegria de estarmos juntos)

do not bring any pets with you (concordo plenamente).

Os bilhetes vendiam-se por 10£, compravam-se online e foram enviados por correio na primeira semana de Dezembro. Aconselhava-se muito:

due to the large crowds expected in London on the night it is important that you arrive at your allocated entrance gate within the entry times specified (a entrada era entre as 19h e as 21.30h);

(…) note that your return journey may vary from your outward journey (saímos em St. James’s Park e voltámos por Green Park);

travelling around London on foot will be more difficult and take more time than a normal day…

IMG_6734A noite estava amena, com uns “confortáveis” sete graus (melhor que as temperaturas negativas do início da semana). Os vaticínios de alguns amigos (uma grande confusão, muito frio, não vão conseguir ver nada) não se concretizaram: a confusão foi comedida, estava frio mas nada intolerável e suportou-se bem e, o mais importante, estávamos muito bem localizados à esquerda do Big Ben e de frente para o London eye. Claro que tinha cabeças à minha frente (ou não fosse seu baixinha) mas via-se perfeitamente o espectáculo e não estou mesmo nada arrependida em ter ido!!

IMG_6719IMG_6764 IMG_6771IMG_6779Depois do festival de cores e som acabar fomos andando lentamente em direcção ao Big Ben que, impávido e sereno, testemunhou mais uma passagem de ano qual sentinela antiga e imutável. O lixo juncava o chão com sacos a esvoaçar, garrafas espalhadas, comida meia trincada e até casacos esquecidos; passámos por algumas personagens embriagadas que estendidas no chão se recusavam terminantemente a levantar, assistimos a um arrufo entre namorados nos primeiros minutos do novo ano (começo nada auspicioso); vimos à distância outros embriagados encostados a uma parede a vomitar mas no geral essas personagens estavam em minoria e a maioria divertia-se à beira rio esperando que a debandada em direcção aos metros abrandasse. Na realidade o triste espectáculo de gente embriagada, habitual neste tipo de festas, foi raro e mais raro ainda, ou mesmo inexistente, era ver pessoas a fumar. Seria de esperar que este aglomerado de pessoas ao ar livre predispusesse os fumadores a isso mas a verdade é que nas mais de três horas que passámos na rua não se viu nem sentiu qualquer baforada de tabaco. Realmente extraordinário!

IMG_6837Fomos acabando com o champanhe e a última flute bebida foi já aos pés do Big Ben, com a Sara a oferecer chocolates a alguns seguranças encarregues de vigiar a multidão e o Luis a filmar o London eye a mudar de cor. Os sinos da Abadia de Westminster batiam incessantemente desde a meia noite e só se calaram quando a 1h da manhã chegou e o Big Ben fez soar uma única e solitária badalada na primeira noite do ano. Fomos para Victoria Station mas os acessos estavam entupidos de gente pelo que virámos em direcção a Green Park. As ruas estavam cheias de gente a caminhar em várias direcções e no meio de galhofa percorremos a Buckingham road até ao palácio, contornámos a estátua de rainha Vitória e entrámos no The Mall, onde a meio virámos à esquerda, subimos e fomos desembocar em Picadilly (não o Circus mas a avenida que liga Picadilly Circus a Green Park). Aí mais gente se aglomerava e parecia uma qualquer tarde de Inverno com pessoal de um lado para o outro ocupado nos seus afazeres diários, em vez de quase duas da manhã no primeiro dia do ano! Passámos o Ritz e entrámos com facilidade na estação de Green Park em direcção a casa. Ao contrário do dia de Natal em que não há transportes públicos, no dia de ano novo há durante 24 horas e é gratuito entre as 23.30 e as 4.30h.

IMG_6815E no meio da luz, do som e das cores detive-me a pensar no ano que passou e no que se iniciava. Nestas alturas nunca sei se estou a comemorar o passado ou a antecipar o futuro, por vezes até me sinto perdida e invadida por emoções fortes e contraditórias que me deixam lábil. Mas este ano em frente ao London eye, olhando a contagem decrescente do relógio projectada no edifício do outro lado do rio e o The Shard a brilhar à esquerda, também ele com um relógio gigante a mostrar a passagem do tempo, dei por mim a celebrar a esperança. Esperança num mundo melhor, numa vida mais realizada e feliz, em dias mais cheios e produtivos, em momentos mais alegres…

“Hope

smiles from the threshold of the year to come,

whispering it will be happier”

Lord Tennyson

HAPPY NEW YEAR TO EVERYONE!!

Então e agora?

O Natal passou e o frio regressou. Realmente foi como se passado o dia 25 a magia desaparecesse. De repente parece que as luzes ligadas já não assim tão acolhedoras, experimentar receitas deixou de ser um desafio aliciante e o cheiro ténue a fritos que ainda se adivinha no ar deixou de lembrar Natais passados…

A semana entre o Natal e o ano novo foi sempre muito difícil para mim: é a altura que se pára para pensar no ano que passou e chega-se à conclusão que pouca coisa se alterou. Por vezes penso tanto que parece que a minha mente entra numa espiral imparável, num ciclo vicioso e infinito: detesto fazer noites, não me apetece trabalhar, a minha vida não sai disto, destesto a minha vida. Claro que não detesto a minha vida mas sinto-a num beco sem saída, o que acaba por ser a história da minha vida: não estou satisfeita, parece que estou cronicamente à procura de algo, estou sempre a reclamar mas nada faço para mudar. Comentava isto esta noite ao que me responderam com o habitual:

Tens de ver o lado positivo da vida…

– Pois, pois… (Porque será que dizem sempre isto? Não saberão que quando se está em baixo é precisamente o lado positivo da vida que não se consegue ver? Por isso se está em baixo!)

Sério! Senão vê: mudaste de país…

– Isso foi no ano passado…

Bem, foste promovida…

– Isso foi no ano passado…

Foste transferida…

– Bom, ok, realmente isso foi este ano, mas parece que fora isso nada mudou!!

Continuei envolvida numa relação sem futuro, continuei a reclamar das horas de trabalho e dos turnos longos, continuei a oscilar entre uma tristeza incapacitante e uma tranquilidade temporária… É verdade que fui transferida, mudei de casa, vendi o carro e aluguei a minha casa em Portugal aliviando despesas; conheci países novos e reatei velhos conhecimentos; assisti a espectáculos de cortar a respiração e de elevar a alma, e defendi finalmente a minha tese com um orgulhoso 19 mas continuo a achar que foi pouco, que podia ter sido mais. Pode sempre ser mais…

IMG_6461Claro que não disse isto tudo, mas pensei… E parece que custa mais depois do Natal quando num dia vivemos intensamente, comemos como se o mundo fosse acabar no dia seguinte (e se acabar que se morra de barriga cheia), estivemos com amigos e abrimos presentes para depois voltarmos à vida real.

A véspera de Natal foi um misto de menú inglês com português onde a refeição foi muito inglesa com perú no forno (nunca pensei sentir a falta do bacalhau cozido com batatas e couve) acompanhado de cranberry sauce, batatas e parsnips (patinascas) no forno, antecedido de chicória com pêra e queijo roquefort com óleo de nozes mas o resto foi muito português e tudo homemade: sonhos daqueles que empestam a casa por serem fritos mas que nos fazem crescer água na boca e reavivam memórias, broas castelar saídas directamente do forno para a mesa, bolo rei que vemos levedar, cozer e depois saboreamos (mesmo aqui a esquisita que põe de lado todas as frutas cristalizadas que encontra); mousse de chocolate e leite creme e, claro, café (n)espresso para finalizar. Como aqui não há disto à venda em cada esquina passámos a véspera de Natal de volta do forno e a encher a casa de aromas muito portugueses… Foi bom, tranquilo e antecedeu um dia de Natal soalheiro embora frio.

IMG_6538 IMG_6553

E foi na tarde do dia de Natal que tive de dar por encerradas as festas saindo para a cidade de Londres que neste dia parece quase fantasma: não há transportes públicos desde a meia noite de dia 24 às oito e meia da manhã de dia 26. Durante todo o dia 25 os autocarros são inexistentes, o metro não abre as portas, os comboios não circulam. Vai-se onde se tem de ir no dia 24 e fica-se lá; enquanto as badaladas da meia noite se esvanecem no ar assim a circulação rodoviária se suspende. Só quem tem carro se desloca pela cidade.

Ou quem anda a pé.

Ou de bicicleta.

Ou, tal como eu, de táxi porque os hospitais não fecham e as doenças não sabem o que são feriados. E por isso vai-se trabalhar, e volta-se a fazê-lo no dia seguinte e quase sem nos apercebermos o Natal passou e vemo-nos rodeados pela euforia da passagem de ano e pela quase obrigação de termos de nos divertir, de sair para a rua e nos embebedarmos. Porque na passagem de ano temos de nos divertir, tal como no Natal temos de estar com a família!! O problema surge quando não nos apetece divertir e a família está longe ou, por vezes, está perto mas não é de todo o que se vê nos filmes ou como se anuncia na TV. E depois? Como fazemos?

Can you be happy for 100 days in a row?

Numa daquelas noites em que de repente o sono se escapuliu e eu dei por mim a olhar o tecto às 4h da manhã, liguei a net e pus-me a saltitar de site em site, de blog em blog. Num desses blogs deparei com uma referência a um site sobre 100 happy days (http://100happydays.com/) e resolvi perder um bocadinho da minha noite a ler sobre o que era, até porque me parecia bem mais interessante que olhar para os ponteiros do relógio a avançar.

O desafio proposto pelo site era encontrar todos os dias algo que proporcionasse felicidade para que pudêssemos dar mais valor à nossa vida, encontrando algo alegre mesmo quando tudo parece mais negro e tentar associar uma fotografia que o reflectisse. Achei muito interessante, até porque já tinha feito algo do género em 2012: tirei uma foto todos os dias, mesmo quando me sentia mais triste, para poder achar sempre algo pelo qual me sentisse grata e concluir que, afinal, a vida tem sempre algo de feliz para oferecer. Desisti seis meses depois de começar mas ficou sempre o bichinho pelo que resolvi embarcar no desafio em Abril.

Não se tratou de um concurso de felicidade nem de uma ostentação do nosso modo de vida, apenas uma maneira de perceber que se é feliz no meio da nossa vida preenchida e tantas vezes frenética. E se no início partilhava as minhas fotos no facebook pouco a pouco decidi torná-las mais privadas mantendo, no entanto, a minha colecção diária. E estes são os meus 100 happy days, cerca de 25 de cada vez, tirando-os dos meus arquivos pessoais e partilhando-os com quem os quiser ver.

1-6Um dia de sol … desfrutar de um livro num parque verdejante … saborear um cappuccino … voltar para casa depois de um turno caótico … um lanche no jardim … um café português em terras britânicas…

7-12… almoço de Páscoa entre amigos … gatos… aterrar em Lisboa … planear as próximas férias … Lisboa à chuva … voltar a casa …

13-18… chegar ao trabalho e sentir o frio da manhã a desaparecer … iniciar um novo livro … um cappuccino sobre Londres com uma vista fantástica e uma companhia agradável … o som do silêncio … acabar o livro deitada na relva … quando tudo parece negro lembrar que “tomorrow is another day” (já dizia a Scarlett O’ Hara)…

19-25… bolo de chocolate … lanche com uma amiga … a vida em câmara lenta … tuga lunch … rir até às lágrimas … dormir a sesta depois de ter acordado às 4h30 … o som da chuva …

365 dias…

1Durante mais de uma década trabalhei no serviço de pediatria do IPO de Lisboa. Durante esse tempo habituei-me ao arregalar de olhos e à pergunta recorrente “como é que consegues?”. E de todas as vezes dava a mesma resposta: “oncologia é mesmo assim, ou se ama ou se odeia.” Não direi que amava mas gostava, e muito, e ainda gosto. Mas na nossa vida por vezes chega a hora de deixar para trás o que consideramos ser seguro (por mais subjectivo que isso seja) e temos de partir. E esse momento chegou para mim há 365 dias…

Quando penso na pediatria penso com saudade mas com tranquilidade, porque sinto mesmo que o meu tempo naquele serviço terminou. Não olho saudosa para as fotografias nem reflicto lamuriosa sobre o passado, em vez disso consigo recordar e sorrir (tomara que fosse assim com tudo o resto) sobre o que vivi naqueles longos corredores, com aqueles meninos e pais, com os colegas e todos aqueles com quem me cruzei nestes anos todos.

2

De certa forma eu já fazia parte da mobília. Aqueles corredores eram-me familiares como a minha própria casa (penso, até, que foi onde passei mais tempo), sabia de cor onde ficavam os quartos e conseguia ir às escuras até aos locais mais recônditos, como a unidade de isolamento. Atravessei várias obras, fui várias vezes desterrada para o 4º e 6º andares quando uma das alas era encerrada (e, ao contrário de muitas colegas, gostei. Tantas foram as noites que passei a ver a “Anatomia de Grey” que agora, de cada vez que ouço o genérico, recuo no tempo e volto a estar fechada entre cortinas, paredes meias com pais e crianças, enquanto os earphones despejam aqueles acordes tão familiares), passei lá muitos natais e algumas passagens de ano e era de tal modo familiar aquele ambiente que era natural fazer um desvio até à copa e tirar uns quantos flocos de chocapic que se iam mastigando a caminho da sala de trabalho.

Consigo recordar com um sorriso os filmes que víamos durante as noites, e sou do tempo (ai, ai) em que só tínhamos rádio para passar o tempo. Depois veio a TV (sempre 24 horas ligada), o vídeo e depois o DVD; os computadores ocuparam o centro da nossa mesa (e da nossa vida) e sentimos na pele a febre do messenger e do facebook: de repente a conversa passou a ser sobre semear e colher alimentos, tratar dos animais e criar verdadeiras obras de arte em quintas virtuais. Estava aberta a moda da farmville e toda a gente era vizinho de toda a gente, falando de colher tomates como quem falava de ir às compras. E como todas as modas até essa se desvaneceu, dando lugar ao candy crush, ao pinterest, instagram e outras tantas redes sociais. Passar o turno com a internet ligada passou a ser um habituée (o que exasperava algumas pessoas. E às vezes a mim também).

4Assisti a muitos casamentos, acompanhando as noivas na sua ansiedade pré matrimonial de preparativos e muitas dores de cabeça. Fiz parte da Comissão Organizadora de Prendas de Grande Porte que se ocupava em reunir dinheiro para oferecer a noite de núpcias aos noivos; vi nascer muita criança, sobrinhos emprestados que continuo a ver crescer, embora longe; vi namoros começarem e acabarem entre muita choradeira e tristeza; vi dietas iniciadas, interrompidas, reiniciadas; fui ouvinte paciente de muitas confindências e de notícias bombásticas sussurradas em segredo…

5 Tivemos ceias memoráveis compostas de frango assado, batatas fritas, coca colas e doces, muito doces.

Até na copa se assou chouriço em álcool num porco de barro que se deve ter perdido no tempo e nas obras.

Quem nos quisesse ver felizes era à volta de uma mesa, partilhando saborosas iguarias entre conversa e gargalhadas.6

 

 

 

Festas de anos, jantares de Natal, despedidas de solteiras, todas as razões eram boas para festejar em conjunto.

789Com o passar do tempo vieram as festas de anos infantis e, pouco a pouco, as saídas foram começando a rarear, fosse porque a vida não o permitisse entre horários sobrecarregados e sobrepostos, porque os deveres parentais a isso obrigavam ou porque a crise económica o impedisse. Disso tenho saudades… daquelas saídas em conjunto em que se comia até não se poder mais e se ria até às lágrimas, das conversas intermináveis, dos desabafos, da irritação que nos fazia fumegar em conjunto (“não estamos a falar mal, estamos só a desabafar”), das idas ao cinema depois de uma tarde, dos almoços antes de ir trabalhar, daqueles pequeno-almoços intermináveis depois dos turnos da noite. Que saudades do bar, com aquelas torradinhas em pão caseiro ou do pãozinho quente acabado de sair do forno com queijo fresco, do galão ou do sumo de laranja, das empadas de galinha… e da conversa, principalmente da conversa, mesmo aquela ensonada antes de nos dirigirmos para o carro para voltarmos para casa, para ir dormir. 10

Penso que disso guardei o melhor para mim, porque quando volto a Portugal é sempre uma razão para estarmos novamente juntas, tornando-me de novo a ouvinte paciente enquanto todas ventilam a sua irritação à minha volta, rindo de novo até chorar, sabendo das novidades de quem deixei de ver. Pouco a pouco as notícias vão enfranquecendo… é mesmo assim, as distâncias criam as suas regras incontornáveis e dia após dia a nossa realidade vai-nos afastando. Continuamos a falar a mesma língua mas já não nos entendemos tão bem: as private jokes tornaram-se mesmo privadas e perco o fio à meada quando ouço o que se passa; deixei de conhecer algumas enfermeiras porque no último ano muitas que conheci saíram para outros serviços ou outros países, e deixei de perceber o que se passa quando leio alguns comentários nas redes sociais.

DSC_0465Com algumas o contacto mantém-se pois as tecnologias são do melhor que há nestes tempos modernos: Whatsapp, e-mail ou skype, continua a haver um fio condutor que nos une mesmo estando consciente que esse fio poderá enfraquecer. Porque eu já não pertenço ao mundo do IPO e o meu mundo tornou-se distante e algo romântico. Sou a protagonista improvável de aventuras, falando numa língua diferente, se bem que compreensível para todos; sou aquela que deixou o sol procurando algo a mais de 1500km de distância; sou a chefe de equipa que deixou de o ser, para sê-lo novamente numa outra pediatria; sou alguém que passou a ver o Big Ben de forma rotineira mas deixou de ter praias de areia fina ao seu alcance; alguém que deixou de ter torradas e passou a ter scones, que trocou o lanche pelo afternoon tea e os turnos de 8 horas pelos de 12.

Mas espero que saibam que mesmo longe, falando uma outra língua e vivendo uma outra realidade, há momentos que permanecerão muito nossos e nos unem. E que mesmo a mais de 1000km de distância, vivendo numa terra de princípes e princesas em que a rainha tem o mesmo nome que eu, serei sempre uma ouvinte paciente e o meu coração terá sempre um cantinho para todas. E quando voltar a portugal, sempre que voltar, espero ver o vosso sorriso, ouvir a vossa voz e partilhar alguns momentos que fazem da nossa vida aquilo que ela foi/é.

polónia;mónica;relaxamento 100