Happy New Year!

IMG_6703Sem nunca ter ligado muito ao ano novo há, no entanto, algo que eu me obstino em fazer cumprir: na passagem de ano não quero estar a trabalhar!! Nos muitos anos de trabalho fiz muitas, mas mesmo muitas, noites de Natal mas de ano novo apenas uma! Não alinho na pressão social de ter de me divertir mesmo que não me apeteça mas passar no hospital deixa-me desconfortável. E eu sei que quem está doente está pior, eu sei!!! Mas eu não estou e não podemos passar o tempo a comparar a nossa vida com quem está pior. Nem com quem está melhor! A nossa vida é a nossa, seja ela boa, má ou mais ou menos.

238Mas sendo de poucas folias sempre disse a mim mesma que se fosse para comemorar então que o fizesse em grande e os meus planos passavam por festejar perto do Big Ben, Torre Eiffel ou Times Square. Nunca aconteceu, fiquei sempre por ambientes mais caseiros.

No ano passado fomos a Primrose Hill que oferece uma panorâmica da skyline de Londres e de onde se consegue ver o rio e o London eye. Chovia e a quantidade de gente à nossa volta era tanta que vi apenas o topo do fogo de artíficio. Deu para festejar, claro, mas depois ficámos decididos a ir até à margem do rio na próxima passagem de ano.

E assim fizemos.

IMG_6753A meio do ano as regras mudaram e de um evento absolutamente livre com quase meio milhão de pessoas na passagem de ano 2014-15 passou para algo mais controlado com a venda de bilhetes limitados a três entradas diferentes (North 1: Westminster, Trafalgar Square Entrances; North 2: Savoy Street & Surrey Street Entrances e South: Westminster Bridge e Belvedere Road Entrances) e muitas regras a cumprir:

no glass may be brought into the event viewing areas (passagem de ano sem champanhe? Nem pensar!! Esvaziámos uma garrafa de vidro para dentro de outra de plástico e acompanhámos com flutes de plástico)

Alcohol may be permitted in small quantities in plastic bottles (tudo bem, queríamos divertir-nos não embebedar-nos)

do not bring any fireworks, including sparklers (houve fogo de artificio de sobra)

IMG_6628 IMG_6696the event is not suitable for small children; please do not bring buggies into the event (vimos dois carrinhos e nada mais. Algumas crianças, mas poucas, e dormiram no colo dos pais até à meia noite)

no chairs or tables will be permitted (mesas? O chão serviu perfeitamente para os nossos comes e bebes. Na falta de pequenos confortos resta a improvisação e a alegria de estarmos juntos)

do not bring any pets with you (concordo plenamente).

Os bilhetes vendiam-se por 10£, compravam-se online e foram enviados por correio na primeira semana de Dezembro. Aconselhava-se muito:

due to the large crowds expected in London on the night it is important that you arrive at your allocated entrance gate within the entry times specified (a entrada era entre as 19h e as 21.30h);

(…) note that your return journey may vary from your outward journey (saímos em St. James’s Park e voltámos por Green Park);

travelling around London on foot will be more difficult and take more time than a normal day…

IMG_6734A noite estava amena, com uns “confortáveis” sete graus (melhor que as temperaturas negativas do início da semana). Os vaticínios de alguns amigos (uma grande confusão, muito frio, não vão conseguir ver nada) não se concretizaram: a confusão foi comedida, estava frio mas nada intolerável e suportou-se bem e, o mais importante, estávamos muito bem localizados à esquerda do Big Ben e de frente para o London eye. Claro que tinha cabeças à minha frente (ou não fosse seu baixinha) mas via-se perfeitamente o espectáculo e não estou mesmo nada arrependida em ter ido!!

IMG_6719IMG_6764 IMG_6771IMG_6779Depois do festival de cores e som acabar fomos andando lentamente em direcção ao Big Ben que, impávido e sereno, testemunhou mais uma passagem de ano qual sentinela antiga e imutável. O lixo juncava o chão com sacos a esvoaçar, garrafas espalhadas, comida meia trincada e até casacos esquecidos; passámos por algumas personagens embriagadas que estendidas no chão se recusavam terminantemente a levantar, assistimos a um arrufo entre namorados nos primeiros minutos do novo ano (começo nada auspicioso); vimos à distância outros embriagados encostados a uma parede a vomitar mas no geral essas personagens estavam em minoria e a maioria divertia-se à beira rio esperando que a debandada em direcção aos metros abrandasse. Na realidade o triste espectáculo de gente embriagada, habitual neste tipo de festas, foi raro e mais raro ainda, ou mesmo inexistente, era ver pessoas a fumar. Seria de esperar que este aglomerado de pessoas ao ar livre predispusesse os fumadores a isso mas a verdade é que nas mais de três horas que passámos na rua não se viu nem sentiu qualquer baforada de tabaco. Realmente extraordinário!

IMG_6837Fomos acabando com o champanhe e a última flute bebida foi já aos pés do Big Ben, com a Sara a oferecer chocolates a alguns seguranças encarregues de vigiar a multidão e o Luis a filmar o London eye a mudar de cor. Os sinos da Abadia de Westminster batiam incessantemente desde a meia noite e só se calaram quando a 1h da manhã chegou e o Big Ben fez soar uma única e solitária badalada na primeira noite do ano. Fomos para Victoria Station mas os acessos estavam entupidos de gente pelo que virámos em direcção a Green Park. As ruas estavam cheias de gente a caminhar em várias direcções e no meio de galhofa percorremos a Buckingham road até ao palácio, contornámos a estátua de rainha Vitória e entrámos no The Mall, onde a meio virámos à esquerda, subimos e fomos desembocar em Picadilly (não o Circus mas a avenida que liga Picadilly Circus a Green Park). Aí mais gente se aglomerava e parecia uma qualquer tarde de Inverno com pessoal de um lado para o outro ocupado nos seus afazeres diários, em vez de quase duas da manhã no primeiro dia do ano! Passámos o Ritz e entrámos com facilidade na estação de Green Park em direcção a casa. Ao contrário do dia de Natal em que não há transportes públicos, no dia de ano novo há durante 24 horas e é gratuito entre as 23.30 e as 4.30h.

IMG_6815E no meio da luz, do som e das cores detive-me a pensar no ano que passou e no que se iniciava. Nestas alturas nunca sei se estou a comemorar o passado ou a antecipar o futuro, por vezes até me sinto perdida e invadida por emoções fortes e contraditórias que me deixam lábil. Mas este ano em frente ao London eye, olhando a contagem decrescente do relógio projectada no edifício do outro lado do rio e o The Shard a brilhar à esquerda, também ele com um relógio gigante a mostrar a passagem do tempo, dei por mim a celebrar a esperança. Esperança num mundo melhor, numa vida mais realizada e feliz, em dias mais cheios e produtivos, em momentos mais alegres…

“Hope

smiles from the threshold of the year to come,

whispering it will be happier”

Lord Tennyson

HAPPY NEW YEAR TO EVERYONE!!

Feira Popular meets Vila Natal

Desde finais de Novembro até princípio de Janeiro, em Hyde Park, surge um parque de diversões que, para mim, é um híbrido entre a feira popular de Lisboa e a Vila Natal em Óbidos. Contou-me a K que quando a Winter Wonderland surgiu pela primeira vez podia-se andar calmamente por ali sem ser preciso fazer desvios e fugir dos magotes de gente que por ali circulam; actualmente é um corropio de gente, uma amálgama de corpos que se reunem juntos dos bares, dos mercados de Natal e das diversões, e durante os fins de semana nem pensar em ir até lá.

IMG_1283Por todo o lado se ouve uma estranha mistura de música tradicionalmente natalícia e êxitos da música internacional; tanto se destingue “Have yourself a merry little Christmas” de Frank Sinatra, como “Livin’ la vida loca” de Ricky Martin.

natal1natal2Há pais Natal por todo o lado, elfos e bonecos de neve a espreitar; ursos polares, pinguins e tantos outros seres e animais habituais destas épocas; comem-se waffles com diversos toppings, crepes e castanhas assadas; bebem-se cafés, chocolates quentes ou, o mais característico, mulled wine (vinto tinto quente com especiarias) que aquecem nestes dias frios de Dezembro.

Natal4IMG_6428Nada apreciadora de vinto tinto virei-me para a mulled cider, uma alternativa também alcoólica para quem não gosta de vinho. Eu e a E parámos num dos imensos bares da Bavarian Village dentro do parque, e pedimos uma para cada uma. O rapaz olhou para nós e disse “Sure, you just need to show me some IDs”, perante o nosso olhar surpreso lá prosseguiu com a explicação que todos os adultos que pareçam ter menos de 30 anos têm de mostrar provas de terem mais; por lei estão proibidos de vender bebidas alcoólicas a menores de 25 anos!! Really?? Não que isso fosse surpresa, mas eu pareço ter menos de 30??? Jura? Não sabia se havia de me sentir frustrada por não conseguir comprar ou lisonjeada por parecer menos de 30, mas de qualquer maneira, e estupidamente, nem eu nem ela (ela sim, com menos de 30) tínhamos connosco prova de maioridade: nem BI, nem passaporte, nem carta de condução, nada!! Sugerimos cartões de débito, de crédito, de enfermagem, mas nada! “Better luck in a different place” and off we went.

Segunda tentativa e de novo o mesmo obstáculo “show me your IDs”… por trás do balcão a senhora permaneceu irredutível perante a nossa insistência e lá admitiu que percebia que eu tinha mais de 18 mas mesmo assim tinha de obedecer à lei, e acrescentou que havia polícias pelo parque a vigiar, além de câmaras. Credo, mas que paranóia! Ou não, consigo perceber que os ingleses adoram todas as desculpas para se embebedarem mas, caramba, via-se que não éramos adolescentes à procura disso, só queríamos provar… a E ainda aventurou pedirmos a alguém que comprasse por nós (digno de filme!!) mas depois de dar volta ao miolo lá me lembrei que tenho uma cópia do passaporte no mail; depois de lhe mostrar aceitou e vendeu-nos duas. Pelos vistos basta uma pessoa ter provas de mais de 18 e até podíamos levar um garrafão de cinco litros para cada uma…

IMG_1282Depois das aventuras para beber a mulled cider, marchou um fish & chips (não consigo achar piada a isto), um café quentinho (pedi espresso, saiu-me uma banheira de café) e um waffle quentinho com chocolate derretido por cima… como no ano passado as diversões mais radicais ficaram por experimentar pois a todos que me acompanharam falta a coragem e abundam as vertigens…

Natal5Por isso ficámo-nos pelo passeio pelo parque e por pôr a conversa em dia que, após dois meses, havia muito que actualizar. E aproveitar o sol que neste dia resolveu dar um ar de sua graça…

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Hello Scrooge...

Hello Scrooge…

Não é, de todo, o meu sítio preferido e dispenso os magotes de gente e a confusão, mas é um bom sítio para beber uma sidra e comer uma waffle. E se algo ficou bem marcado na minha memória, além de acharem que tenho menos de 30 anos! (You made my day!”, disse eu ao rapaz, à laia de despedida) foi o frio, e que frio!! O frio tem andado por aqui mas como ando muito a pé sinto-o, mas com relativa intensidade; afinal, está frio e entramos para o autocarro – e está quente!, está frio e entramos no metro – e aquecemos!, está frio e entramos numa loja – e quase nos despimos com o calor que está!, mas ali, no descampado do parque, está frio e… continuamos com frio. E depois de algum tempo a andar a passear com dois blocos de gelo enfiados em botas e de luvas a cobrir os dedos quase isquémicos chega a vontade de voltar para casa ou, pelo menos, ir para algum lado quente nem que seja para o metro para aquecer.

E deixámos a Winter Wonderland para o ano. Talvez. Quem sabe…

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It’s beginning to look a lot like Christmas…

… everywhere you go!

Sem dúvida que já parece Natal e já há muito tempo! Na verdade desde Outubro que já parece Natal o que parece muito bem nesta cidade onde se sente o frio todos os dias… e que frio!! Várias são as vezes em que saio de casa com zero graus mas que se sente como menos um e que faz cobrir de gelo não só os carros mas tudo o que fica na rua, à noite.

@ Somerset House

@ Somerset House

Nasci no Outono mas sempre achei que a minha alma pertence ao Inverno, aos dias curtos e às noites longas, escuras e frias. Não gosto dos turnos de 12 horas quando saio de casa antes do sol nascer e regresso depois de ele se pôr mas quando saio para a noite fria e cristalina sinto-me revigorada e mais viva que nunca. Os ingleses chamam-lhe “crisp night”, nada a ver com serem estaladiças mas sim “pleasantly cold and invigorating” (mais uma vez o significado perde-se na tradução).

@ New Bond Street

@ New Bond Street

Não adoro o Inverno até porque sofro de uma SAD (Seasonal Affective Disorder) ligeira, mas admito que gosto quando o frio nos morde. O calor deixa-me mole e sem energia enquanto o frio me espevita e anima mesmo quando o frio cobre de gelo as ruas. E quando saio de casa manhã cedo, antes das sete da manhã e ainda noite (o sol nasce perto das 8 horas) observo as folhas caídas no chão que brilham na manhã, como se alguma fada tivesse espalhado purpurinas pela sua superfície. Não é magia nenhuma mas apenas o orvalho que gelou nas folhas, mas parece que até a natureza se enfeitou para receber o Natal.

@ Marylebone High Street

@ Marylebone High Street

E se a natureza se prepara para o Natal, que dizer das ruas de Londres, aliás de toda a cidade? Por todo o lado se sente, ouve – e cheira – a Natal… It’s beginning to look a lot like Christmas… All I want for Christmas is you… Let it snow… I’ll be home for Christmas.. Faz falta o coro de Santo Amaro de Oeiras a cantar “A todos um bom Natal” mas aprende-se a viver, pensar, e cantar, em inglês…

@ Marylebone High Street

@ Marylebone High Street

… enquanto o nosso coração sente, e recorda, em português…

@ the Shard

@ the Shard

E neste Inverno frio a magia preenche o ar e sorrimos… ou choramos consoante o nosso estado de espírito…

@ London Palladium (Cats)

@ London Palladium (Cats)

E bebemos algo quente pois este frio casa maravilhosamente com o Natal… na minha cabeça não há calor nesta quadra e seria estranho, quase surreal, andar de manga curta nas ruas e comer gelados.

Gingerbread latte? Eggnog latte?

Gingerbread latte? Eggnog latte?

E dividimos os dias entre o trabalho, as esquiadelas (a quedas) nos rinques de patinagem no gelo que se espalham pela cidade, as compras, a comida alusiva à época…

@ Somerset House provando mince pies (detesto) de chocolate (com chocolate? Até nem são más)

@ Somerset House provando mince pies (detesto) de chocolate (com chocolate? Até nem são más)

E cada vez mais me convenço que adoro estes dias pintados de vermelho e dourado muito mais que o dia de Natal per si... Porque no dia 25 parece que todas as decorações estão deslocadas e o frio… bem, o frio passa a fazer parte de um Inverno que parece interminável sem aquela sensação acolhedora que nos proporcionam as luzes a piscar, sem o cheiro de especiarias e de mulled wine pelo ar, sem pais Natal barrigudos e de barba branca pela cidade. Mas enquanto o dia 25 não chega vamos lá a aproveitar… porque realmente It’s beginning to look a lot like Christmas…

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Um domingo caseiro…

… que remédio!

Estar de folga ao domingo é bom, muito bom. Mas às vezes é absolutamente irritante, especialmente quando lá fora está frio e parece que vai chover a qualquer momento, o que faz adiar uma ida ao parque para ler esticada na relva ou sentada num banco a aproveitar os raios de sol. Isto porque a relva está húmida e fria e o sol há muito se escondeu.

Por isso fico em casa, andando em modo lesma. Depois de três noites a trabalhar tento reequilibrar os meus ritmos circadianos apenas numa folga, antes de recomeçar a rotina diária de casa-trabalho/trabalho-casa. Não é de todo mau, mas acabei de ler “Retrato de uma espia” há uns dias e ainda não me decidi que ler a seguir, precisava de estudar mas não me apetece, a casa está a precisar de ser limpa mas é um abooooorrecimento fazê-lo (e um desperdício de folga), não tenho televisão inglesa e a da net parece nada passar de interessante, os meus amigos parecem estar a trabalhar (os solteiros) ou ocupados com filhos (os casados). Definitivamente este é um dia em que faça o que fizer parece ser sempre uma chatice, em que nada parece apelativo ou interessante. É o que acontece quando se trabalha muitos dias seguidos e depois se tenta recuperar num único dia… Difícil e boring

Já sei que vai ser um dia dedicado ao sofá e à moleza… nada de mal nisso, por vezes sabe bem um dia mais tranquilo, mas já sei que lá para o final do dia vou finalmente arrebitar e encher-me de energia, mas nessa altura, nesta cidade cosmopolita, nada parece haver para fazer. Incrível? Parece, mas…

  • precisava ir ao IKEA – fecha às 17h
  • centros comerciais? – fecham às 18h. Todas as lojas, excepto os cinemas!!! Ir beber um café e fazer tempo para o cinema? não há onde beber um!! O filme que quero ver só tem sessão perto das 19h e não há nenhum sítio para queimar o tempo…
  • andar por aqui e ir mais tarde beber um café a uma delicatessen portuguesa que existe aqui perto? Fecha às 17h
  • ir até ao Costa? A maioria fecha às 18h (vá, há alguns que fecham às 20h ou 21h, mas são no centro e não me apetece ir até lá… sim, eu sei, estou a complicar mas realmente não me apetece!)
  • Starbucks? No centro…
  • Aproveitar para ir ao supermercado? Sainsbury’s e Waitrose fecham às 17h ou mais tardar às 18h… e o mesmo se passa com os pequenos supermercados…
  • Compras? As grandes lojas – Selfridges, Debenhams, John Lewis, Marks & Spencer – fecham às 18h…

Parece impossível mas nesta grande cidade tudo fecha cedo e nestes dias de chuva e frio em que os dias cada vez encurtam mais e a noite chega depressa, parece que não há nada para fazer. E quando se alia um estado de espírito mais preguiçoso e apático, temos um dia aborrecido. Gostava de ter talento para pintar. Ia para uma falésia algures, pintar as ondas açoitadas pelo vento, numa paisagem feita de céu tempestuoso e a ameaçar chuva. Mas não tenho talento para isso, não há falésias aqui por perto e muito menos ondas, revoltosas ou tranquilas.

E com isto vou-me aborrecendo, o tempo vai passando, daqui a pouco chega a noite, a folga acabou e o dia de trabalho vai chegar num ápice..

hourglassAcabei por sair de casa mas até ir ao cinema às vezes torna-se uma aventura.

As nuvens, que todo o dia se contiveram, finalmente despejaram a chuva na terra assim que saí porta fora. Ainda fiz parte do caminho sob aquela chuva miudinha as que os ingleses chamam drizzle, mas tive de me resignar ao facto da chuva continuar a cair e abri finalmente a sombrinha.

photo(1)Parei no Costa que afinal estava aberto até às 20h e fiquei uns minutos sentada, a apreciar um espresso e a ver as vistas (nada de muito interessante, mas estas pausas sabem sempre bem).

Fui depois apanhar o autocarro mas enganei-me e em vez do 32 apanhei o 332. Só quando virou para a esquerda em vez de continuar em frente é que desconfiei e por entre passageiros encasacados tentei ver para lá das janelas embaciadas, a ver se reconhecia onde ia. Nada reconheci e saí na paragem a seguir; abri o site da tfl e ao ver o percurso especificado percebi que aquele autocarro também dava, só tinha de ter saído… logo na paragem seguinte.

Fiquei à espera do autocarro (novamente), entrei e saí onde devia. Ainda fiquei indecisa mas perguntei a uma outra passageira que saíra comigo (e que falava português!) que me indicou a direcção correcta e lá fui eu.

Dei bem com o sítio, sacudi o guarda chuva, pedi o bilhete e cedi a um pacote grande de pipocas às quais dei um bom avanço enquanto esperava pelo início do filme (temos de aguentar meia hora de publicidade – sim, meia hora!! – antes do filme realmente começar). E quase duas horas depois, quando saí, a chuva continuava a cair e eu lembrei-me que tinha deixado roupa a secar.dracula-untold-0v

Foi este o filme que fui ver (adoro filmes de terror!) e gostei. Sempre bom ver como surgiu uma personagem tão famosa como o Drácula, se bem que nunca saberemos se foi assim que o Bram Stoker o imaginou. E confesso que também gostei muito de Luke Evans (o actor que faz de Vlad), muito mesmo. Já gostara dele no The Hobbit mas neste está muito mais interessante. Muito mesmo 🙂

Lord of the dance

Li algures que se colocarmos um relógio perto de um aquário, o seu tique taque é amplificado pela água e o coração do peixe tenta acompanhar o som, começa com disritmias e acaba por parar. O proverbial peixinho dourado morre só porque tenta acompanhar o ritmo do relógio.

A noite passada senti o mesmo… não me parece que tenha feito disritmias (e não morri) mas ao ouvir o matraquear cadenciado dos sapatos senti o coração a bater com força e o sangue a pulsar mais forte nas veias. Senti-me envolvida pela magia que parece evolar do palco: involuntariamente os meus pés tentavam acompanhar o ritmo (e o cavalheiro sentado atrás de mim também sapateava com entusiasmo, a atestar pelas sacudidelas que sentia na minha cadeira) e sentia-me emocionada com o talento dos dançarinos.

Adoro estes espectáculos e tudo o que os envolve: o planeamento, a antecipação e a concretização destas combinações que nos permitem conhecer um bocadinho mais da oferta cultural de Londres. Desta vez fomos ao Soho, ao London Palladium. Quando vi anunciado que o espectáculo do Lord of the dance estaria cá por pouco mais de um mês, fiquei logo com as antenas no ar.

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Riverdance surgiu pela primeira vez no intervalo do Festival da Eurovisão da Canção, em 1994, antes da votação final. Durou cerca de sete minutos, teve uma ovação em pé no final e marcou o início de dezenas de espectáculos que mostravam Michael Flatley e Jean Butler a dançar esta dança tradicional irlandesa. Não vi (e se fosse agora também não veria porque o tempo de estar sentada em frente à TV, com a tv guia aberta no colo para assentar em directo os pontos e ver quem ganhava, já passou há muito); mas assisti a um espectáculo ao vivo, quando o MEO Arena ainda se chamava Pavilhão Atlântico.

Adorei na altura, se bem que as cadeiras na plateia estivessem colocadas de um modo muito infeliz, todas no mesmo plano, o que fez com que durante todo o espectáculo a minha cabeça parecesse um sino a badalar de um lado para o outro, a tentar esquivar-me à cabeçuda que estava sentada à minha frente. Já lá vão muitos anos mas lembro-me bem pelo que achei que este era imperdível.

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E novamente foi inesquecível e adorei todos os bocadinhos… embora admita que nos momentos mais parados, quando tocavam o fiddle ou cantavam, me encostava para trás e deixava o olhar vaguear pelos veludos e brocados da sala. Desta vez não tinha cabeçudos à minha frente e mesmo no upper circle via bem o palco e ouvia nitidamente os taps-taps dos sapatos. E no final ainda tivemos direito a ver o próprio Michael Flatley no palco, a dançar para nós aquilo que tornou famoso para o mundo.

 

E quando saímos para o exterior já a noite caíra sobre Londres e pudemos ver as decorações de Natal que estão já penduradas sobre a Oxford Street (embora apagadas). Fomos envolvidos pela noite fria e deixámos para trás os dangerous games, que estarão por cá até dia 25 de Outubro…

Frozen

A Alice fez quatro anos e escolheu para tema da festa o “Frozen”

O bolo de anos

O bolo de anos

Confesso que não vi o filme… foi uma das estreias no ano passado e numa tarde que tinha livre escolhi o Hobbit em detrimento das aventuras de Anna, Elsa, Kristoff e… mais algumas personagens que não sei o nome… embora saiba da existência de uma rena que, por sinal, fez muito sucesso na festa.

IMG_4202E também há um boneco e neve e… um princípe?

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Mas a estrela da festa não foi a Elsa nem a Anna mas a Alice que quatro anos depois de ter nascido em Lisboa veio festejar o seu quarto aniversário em Londres, a cidade que é sua desde os nove meses. IMG_4302

E nesta coisa de festas infantis temáticas que tem vindo a crescer a olhos vistos nos últimos anos, a festa foi nos tons  frios que caracterizam uma paisagem gelada: azul, verde água, lilás, branco…

Mas longe de ser uma festa fria foi, pelo contrário, quente de ternura e animação, com cerca de vinte e tal miúdos a saltar e a pular com aquela energia inesgotável que os parece caracterizar sempre. E por todo o lado se ouviam expressões de espanto pela delicadeza e imaginação dos pormenores que fizeram desta festa o sucesso que foi…

IMG_4294Diferente das festas infantis em que participei quando miúda, onde não havia nada de temas e a folia se prolongava até altas horas, ou pelo menos até os pais irem buscar a criançada. Foi numa destas festas que provei um pudim que detestei mas que comi todo porque ouvi um raspanete da mãe da aniversariante: “se começaste, tens de acabar”. Acabei-o horrivelmente enjoada e nunca mais fui capaz de comer pudim de morango, da marca Boca Doce. Por mais que digam que é bom, a verdade é que associo sempre àquele que comi quando tinha uns 9 anos e não consegui voltar a repetir. 

Docinhos por fora, frutosos por dentro

Docinhos por fora, frutosos por dentro

Mas quando os miúdos pegaram nesta espécie de cake pops gigantes e comeram o exterior feito de açúcar deixando o interior (uma maçã), ninguém lhes disse “agora tens de acabar”. Parece que realmente os tempos mudaram 😉

IMG_4298E nos detalhes de cada doce fica a lembrança de uma festa gelada, mas bela na sua originalidade…

Gelatina azul...

Gelatina azul…

"Neve derretida"

“Neve derretida”

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Brigadeiros de chocolate branco

Brigadeiros de chocolate branco

As cores da festa

As cores da festa

mesa

garfosE no meio de um mundo infantil, ainda houve espaço para os adultos saborearem algo enquanto a festa prosseguia…

Alguns dos acepipes para os adultos (que algumas crianças também gostaram...)

Alguns dos acepipes para os adultos (que algumas crianças também gostaram…)

E na hora da despedida houve direito a umas lembranças, tanto para miúdos como para graúdos:

Neve instantânea para as crianças e bolachinhas para os adultos

Neve instantânea para as crianças e bolachinhas para os adultos

E não se pense que a festa teve o contributo de uma qualquer empresa organizadora de eventos, porque não teve. Teve, sim, o talento de alguém que adora estes pequenos mimos e que perdoa o facto de alguém deixar a gelatina a meio sem a acabar (sim, foi um trauma, admito). Quase dá vontade de fazer uma festa deste género só porque sim. Quem sabe, afinal vem aí o Halloween e o Natal vai chegar num abrir e fechar de olhos…

IMG_4196E agora deixem-me ir ver o filme para pelo menos saber o nome das personagens.

E parabéns Alice, mais uma vez!

 

 

O gang dos pelicanos

Nasce um dia de sol e eis a ver-nos sair para a rua para fazer fotossíntese. Por mais que nos adaptemos à imprevisibilidade climatérica de Londres, a verdade é que o sol a brilhar chama-nos ao exterior para passear e saborear o momento. Nem pensar em ficar em casa, por isso combinámos um brunch no Soho onde nos deleitámos com uma refeição faustosa para depois sentirmos necessidade de “desmoer” e aliviar a sensação de enfartamento.

O melhor é nem pensar nas calorias...

O melhor é nem pensar nas calorias…

Fomos descendo a rua, chegámos a Trafalgar Square e atravessámos o Admiralty Arch para o The Mall. A ideia era passear ao longo do lago, em St. James Park, ver os esquilos e as aves do parque, aproveitar o calorzinho que nesta quarta feira se fazia sentir.

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Perto da duck island avistámos os quatro pelicanos do parque que estavam agrupados à beira do lago. Deviam estar a planear IMG_4038algo porque, muito calmamente, começaram a andar na direcção da cerca onde estávamos, com um ar bamboleante e algo arrogante.

Foi vê-los aproximar-se em fila e ver tudo o que era pato, cisne, pombos e até corvos afastarem-se do seu caminho. Não sei bem qual a reputação destes bicharocos no meio dos seus companheiros de penas mas não me parece ser das melhores a atestar pelo comportamento dos outros.

E realmente, à nossa frente, um deles resolveu abocanhar à traição um pescoço de um patinho feio e foi ver um cisne vir lançado em defesa do irmão (ou filho. Ou o que for). Depois ficou muito eriçado a vigiar (à esquerda) mas o pelicano deve ter percebido a deixa e não voltou a armar-se em rufia…

IMG_4042E depois desta demonstração de poder e arrogância deixámos os bicharocos em confraternização para voltarmos a Trafalgar em busca de algo fresco que o sol anda mesmo por aqui 🙂

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A minha senhoria

Quando vim para Londres, como muitos antes (e depois) de mim, vivi num quarto. Um quarto com casa de banho privativo, mas “apenas” um quarto onde enfiei tudo aquilo que trouxe (e o que mais tarde veio de camião). Estive lá sete meses antes de encontrar um studio, não muito grande mas com aquilo que precisava: quarto, casa de banho, cozinha e até acesso livre ao jardim (tantas vezes que esse jardim foi utilizado em dias de calor).

An unexpected gift

An unexpected gift

A minha senhoria revelou-se uma simpatia, sempre prestável, até me ofereceu um barbecue quando lhe contei que estava a pensar fazer um. Assim, inesperadamente, num dia de Verão, estava eu sentada no jardim.

E eis que esta semana me lavou as janelas por fora e mandou- me uma mensagem a perguntar quando poderia lavar por dentro. Achei estranho mas como de dona de casa nada tenho, acabei por concordar e quando estava a trabalhar tratou disso. Disso e muito mais…

Chegadinha a casa vinda do trabalho (15 horas depois de sair) cheirou-me logo a lixívia, assim que abri a porta exterior. Lavou as janelas? Sim! Mas também limpou a casa de banho e a cozinha, e até lavou a loiça que tinha ficado do pequeno almoço!! Até me senti envergonhada, até porque às 6.30h da manhã a última coisa que me apetece é lavar loiça mas também não estava à espera que o fizesse.  Também trocou o saco do lixo e pôs um rolo de papel de cozinha novo que tinha acabado ontem mas que não tinha substituído porque ainda não tinha tido um dia livre para ir às compras.

E na casa de banho? Não só limpou o chuveiro e as loiças, como limpou o chão e pôs três rolos de papel higiénico novos naquele acessório para sobressalentes. Caramba, que exagero! Se eu tinha um rolo novo no local apropriado para quê pôr extras? Não iria acontecer ter uma vontade súbita e emergente e ficar apenas com uma folhinha na mão, tinha um rolo inteiro!!!

Com isto tudo já não sei se hei-de agradecer, ficar envergonhada ou assustada. Acho que só não veio ao quarto porque encostei a porta senão ainda ia dar com a gaveta da roupa interior arrumada e separada por cores!

Que a casa cheira a lavada, lá isso cheira mas… E ainda me ofereceu panos de cozinha e uma pega para o forno. Mas eu tenho isso!!! Qualquer dia acordo e tenho-a a pairar em cima de mim, a limpar o pó e a sacudir os tapetes. Ou a trocar os lençóis comigo lá deitada…

Pagar casa em Londres é a despesa maior que tenho e leva-me uma boa fatia do ordenado, mas nunca pensei que me iam limpar a casa desta maneira.

Ah well, obrigadinha… Acho eu….

I wish, I wish…

IMG_2178O dia prometia chuva e deixou-me indecisa onde ir, mas fui. Saí de casa sem o chapéu de chuva mas com o corta vento enfiado na mochila porque em Londres nunca se sabe quando a chuva começa a cair. Estava frio e o vento trazia o cheiro da terra molhada, mas as ruas da cidade continuavam secas.

Fui primeiro ao Soho, a uma paralela de Carnaby Street onde a multidão se atropela em frente às lojas. O meu destino era a Lomography store onde fui à procura de uma máquina fotográfica para oferecer como prenda de anos e onde fiquei mais de meia hora a namorar as inúmeras possibilidades (para mim, confesso).

Carnaby Street (@ Soho)

Carnaby Street (@ Soho)

Depois desci a rua e entrei na Regent´s Street, descendo em direcção a Picadilly. E numa fuga às gotas de água que começavam a cair atravessei a rua e entrei na Waterstone’s deixando para trás o bulício de Picadilly Circus e a confusão da hora de ponta.

IMG_1491Como adoro esta livraria com os seus vários andares cheios de livros que nos transportam para um mundo imaginário (ou não) de aventuras, romance e fantasia. Como adoro o seu ambiente tranquilo e as suas gentes que se encostam às estantes, se sentam nos diversos sofás espalhados, ou no chão, a folhear os vários mundos contidos em centenas de páginas. Ouve-se o suspiro dos livros a serem folheados, sente-se o aroma a novo que se desprende do papel, aquele aroma característico misto de tinta e papel que torna estes locais tão reconhecíveis…

Oh I wish, I wish ter uma livraria destas só minha,com livros a trepar até ao tecto e as portas abertas a quem quisesseIMG_0424 partilhar esta minha sede pelo conhecimento, este desejo de escape para outros mundos, para outras realidades, para algo diferente do habitual. E no meio de letras ter um espaço para parar e saborear um café e uma boa pastelaria, deixando que a vida continue lá fora enquanto lá dentro apenas interessa o momento…

I wish, I wish ter o dinheiro e a coragem de deixar o que habitualmente faço e me lançar num negócio que me alegre e me encha o espírito. Ter milhares de livros à minha volta e, quem sabe, ter nas paredes as fotografias que eu tanto gosto de tirar…

I wish, I wish…

Cappuccino, scones and booksQuem sabe, quem sabe…