Há dias em que…

Este ano tive alguma dificuldade em entrar no espírito de Natal. Nao obstante onde quer que fosse o Natal se me entrar pelos olhos (e pelos ouvidos) a dentro, em casa as decorações continuavam guardadas. Era frequente ser acometida por uma angústia aparentemente inexplicável que me desmotivava e entristecia; não me conseguia convencer a decorar a casa perguntando-me com frequência “para quê?”. E por isso a casa permanecia despida de ornamentos e qualquer alusão ao Natal ficava para lá da porta da entrada. Nem os meus senhorios decoraram a casa porque são judeus e por isso não festejam o Natal.

Comecei a questionar-me sobre tudo: a minha árvore de dois metros que vi reduzida a 50cm quando me mudei para cá (pela falta de espaço); a minha família longe; o segundo Natal passado fora de casa…. Houve uma altura que até a música me parecia ferir os ouvidos e cheguei a andar de earphones nas lojas só para não a ouvir. Tive, por isso, alguma dificuldade em sorrir e be merry quando só me apetecia hibernar e acordar em 2015.

IMG_6415Depois, numa tarde sem nenhuma razão em particular, resolvi espalhar umas luzes pela casa; chegaram as minha luzes be happy da Holanda e a casa ficou banhada numa acolhedora luminosidade difusa e sem ainda me decidir a tirar a árvore da caixa pus um boneco de neve à porta de casa mesmo correndo o risco de se partir com a alegria esfuziante de Harry ou a bonomia possante de Charlie (os meus vizinhos caninos).

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E meia reconciliada com a vida, eventualmente, tirei a árvore para a luz do dia e pus uma coroa na janela com luzinhas. Seguiu-se uma alusão ao presépio, umas velas a bruxulear, experiências na cozinha que espalharam um aroma doce pela casa e uns telefonemas para casa que encurtaram a distância entre mim e eles e me animaram um bocadinho, e pouco a pouco senti-me mais tranquila e, quase receio dizê-lo, em paz.

Por vezes ainda me pergunto “para quê?” mas depois respondo: “porque sim. Simplesmente porque sim. Porque posso estar longe e sozinha mas eu também mereço e gosto do Natal.” E todos os dias repito isso e afinal não foi preciso hibernar…

IMG_6509Mas que há dias em que custa muito, isso sem dúvida…

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It’s beginning to look a lot like Christmas…

… everywhere you go!

Sem dúvida que já parece Natal e já há muito tempo! Na verdade desde Outubro que já parece Natal o que parece muito bem nesta cidade onde se sente o frio todos os dias… e que frio!! Várias são as vezes em que saio de casa com zero graus mas que se sente como menos um e que faz cobrir de gelo não só os carros mas tudo o que fica na rua, à noite.

@ Somerset House

@ Somerset House

Nasci no Outono mas sempre achei que a minha alma pertence ao Inverno, aos dias curtos e às noites longas, escuras e frias. Não gosto dos turnos de 12 horas quando saio de casa antes do sol nascer e regresso depois de ele se pôr mas quando saio para a noite fria e cristalina sinto-me revigorada e mais viva que nunca. Os ingleses chamam-lhe “crisp night”, nada a ver com serem estaladiças mas sim “pleasantly cold and invigorating” (mais uma vez o significado perde-se na tradução).

@ New Bond Street

@ New Bond Street

Não adoro o Inverno até porque sofro de uma SAD (Seasonal Affective Disorder) ligeira, mas admito que gosto quando o frio nos morde. O calor deixa-me mole e sem energia enquanto o frio me espevita e anima mesmo quando o frio cobre de gelo as ruas. E quando saio de casa manhã cedo, antes das sete da manhã e ainda noite (o sol nasce perto das 8 horas) observo as folhas caídas no chão que brilham na manhã, como se alguma fada tivesse espalhado purpurinas pela sua superfície. Não é magia nenhuma mas apenas o orvalho que gelou nas folhas, mas parece que até a natureza se enfeitou para receber o Natal.

@ Marylebone High Street

@ Marylebone High Street

E se a natureza se prepara para o Natal, que dizer das ruas de Londres, aliás de toda a cidade? Por todo o lado se sente, ouve – e cheira – a Natal… It’s beginning to look a lot like Christmas… All I want for Christmas is you… Let it snow… I’ll be home for Christmas.. Faz falta o coro de Santo Amaro de Oeiras a cantar “A todos um bom Natal” mas aprende-se a viver, pensar, e cantar, em inglês…

@ Marylebone High Street

@ Marylebone High Street

… enquanto o nosso coração sente, e recorda, em português…

@ the Shard

@ the Shard

E neste Inverno frio a magia preenche o ar e sorrimos… ou choramos consoante o nosso estado de espírito…

@ London Palladium (Cats)

@ London Palladium (Cats)

E bebemos algo quente pois este frio casa maravilhosamente com o Natal… na minha cabeça não há calor nesta quadra e seria estranho, quase surreal, andar de manga curta nas ruas e comer gelados.

Gingerbread latte? Eggnog latte?

Gingerbread latte? Eggnog latte?

E dividimos os dias entre o trabalho, as esquiadelas (a quedas) nos rinques de patinagem no gelo que se espalham pela cidade, as compras, a comida alusiva à época…

@ Somerset House provando mince pies (detesto) de chocolate (com chocolate? Até nem são más)

@ Somerset House provando mince pies (detesto) de chocolate (com chocolate? Até nem são más)

E cada vez mais me convenço que adoro estes dias pintados de vermelho e dourado muito mais que o dia de Natal per si... Porque no dia 25 parece que todas as decorações estão deslocadas e o frio… bem, o frio passa a fazer parte de um Inverno que parece interminável sem aquela sensação acolhedora que nos proporcionam as luzes a piscar, sem o cheiro de especiarias e de mulled wine pelo ar, sem pais Natal barrigudos e de barba branca pela cidade. Mas enquanto o dia 25 não chega vamos lá a aproveitar… porque realmente It’s beginning to look a lot like Christmas…

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Lost in translation

Há certas chalaças para as quais, por mais que tentemos, não se consegue encontrar uma tradução nem literal nem  aproximada sem perder a piada. Acontece do português para o inglês e vice versa. Quem é do tempo do “Allo, Allo” compreende bem o que falo (quem não é pode, e deve, comprar o DVD em qualquer fnac, worten ou media markt ou, se vive por estas bandas, na HMV ou na amazon), com as piadas britânicas a perderem-se na tradução para o português e fazerem rir a bandeiras despregadas quem entendia as conversas entre René, Madame Edith, Yvette, Michelle (from the resistance), Leclerc e, claro, com o polícia que achava que sabia falar francês e que era o que mais pontapés dava na gramática.

Mas há algumas portuguesas do género como a que me mostraram ontem e me puseram a rir juntamente com o colega português que ma enviou, em plena sala de medicação, rodeados de colegas inglesas que olhavam para nós sem entenderem a razão de tanta risota:

unnamedEsta realmente é daquelas cuja piada se perde completamente na tradução mas que ainda me põe a rir de cada vez que a leio.

 

Um domingo caseiro…

… que remédio!

Estar de folga ao domingo é bom, muito bom. Mas às vezes é absolutamente irritante, especialmente quando lá fora está frio e parece que vai chover a qualquer momento, o que faz adiar uma ida ao parque para ler esticada na relva ou sentada num banco a aproveitar os raios de sol. Isto porque a relva está húmida e fria e o sol há muito se escondeu.

Por isso fico em casa, andando em modo lesma. Depois de três noites a trabalhar tento reequilibrar os meus ritmos circadianos apenas numa folga, antes de recomeçar a rotina diária de casa-trabalho/trabalho-casa. Não é de todo mau, mas acabei de ler “Retrato de uma espia” há uns dias e ainda não me decidi que ler a seguir, precisava de estudar mas não me apetece, a casa está a precisar de ser limpa mas é um abooooorrecimento fazê-lo (e um desperdício de folga), não tenho televisão inglesa e a da net parece nada passar de interessante, os meus amigos parecem estar a trabalhar (os solteiros) ou ocupados com filhos (os casados). Definitivamente este é um dia em que faça o que fizer parece ser sempre uma chatice, em que nada parece apelativo ou interessante. É o que acontece quando se trabalha muitos dias seguidos e depois se tenta recuperar num único dia… Difícil e boring

Já sei que vai ser um dia dedicado ao sofá e à moleza… nada de mal nisso, por vezes sabe bem um dia mais tranquilo, mas já sei que lá para o final do dia vou finalmente arrebitar e encher-me de energia, mas nessa altura, nesta cidade cosmopolita, nada parece haver para fazer. Incrível? Parece, mas…

  • precisava ir ao IKEA – fecha às 17h
  • centros comerciais? – fecham às 18h. Todas as lojas, excepto os cinemas!!! Ir beber um café e fazer tempo para o cinema? não há onde beber um!! O filme que quero ver só tem sessão perto das 19h e não há nenhum sítio para queimar o tempo…
  • andar por aqui e ir mais tarde beber um café a uma delicatessen portuguesa que existe aqui perto? Fecha às 17h
  • ir até ao Costa? A maioria fecha às 18h (vá, há alguns que fecham às 20h ou 21h, mas são no centro e não me apetece ir até lá… sim, eu sei, estou a complicar mas realmente não me apetece!)
  • Starbucks? No centro…
  • Aproveitar para ir ao supermercado? Sainsbury’s e Waitrose fecham às 17h ou mais tardar às 18h… e o mesmo se passa com os pequenos supermercados…
  • Compras? As grandes lojas – Selfridges, Debenhams, John Lewis, Marks & Spencer – fecham às 18h…

Parece impossível mas nesta grande cidade tudo fecha cedo e nestes dias de chuva e frio em que os dias cada vez encurtam mais e a noite chega depressa, parece que não há nada para fazer. E quando se alia um estado de espírito mais preguiçoso e apático, temos um dia aborrecido. Gostava de ter talento para pintar. Ia para uma falésia algures, pintar as ondas açoitadas pelo vento, numa paisagem feita de céu tempestuoso e a ameaçar chuva. Mas não tenho talento para isso, não há falésias aqui por perto e muito menos ondas, revoltosas ou tranquilas.

E com isto vou-me aborrecendo, o tempo vai passando, daqui a pouco chega a noite, a folga acabou e o dia de trabalho vai chegar num ápice..

hourglassAcabei por sair de casa mas até ir ao cinema às vezes torna-se uma aventura.

As nuvens, que todo o dia se contiveram, finalmente despejaram a chuva na terra assim que saí porta fora. Ainda fiz parte do caminho sob aquela chuva miudinha as que os ingleses chamam drizzle, mas tive de me resignar ao facto da chuva continuar a cair e abri finalmente a sombrinha.

photo(1)Parei no Costa que afinal estava aberto até às 20h e fiquei uns minutos sentada, a apreciar um espresso e a ver as vistas (nada de muito interessante, mas estas pausas sabem sempre bem).

Fui depois apanhar o autocarro mas enganei-me e em vez do 32 apanhei o 332. Só quando virou para a esquerda em vez de continuar em frente é que desconfiei e por entre passageiros encasacados tentei ver para lá das janelas embaciadas, a ver se reconhecia onde ia. Nada reconheci e saí na paragem a seguir; abri o site da tfl e ao ver o percurso especificado percebi que aquele autocarro também dava, só tinha de ter saído… logo na paragem seguinte.

Fiquei à espera do autocarro (novamente), entrei e saí onde devia. Ainda fiquei indecisa mas perguntei a uma outra passageira que saíra comigo (e que falava português!) que me indicou a direcção correcta e lá fui eu.

Dei bem com o sítio, sacudi o guarda chuva, pedi o bilhete e cedi a um pacote grande de pipocas às quais dei um bom avanço enquanto esperava pelo início do filme (temos de aguentar meia hora de publicidade – sim, meia hora!! – antes do filme realmente começar). E quase duas horas depois, quando saí, a chuva continuava a cair e eu lembrei-me que tinha deixado roupa a secar.dracula-untold-0v

Foi este o filme que fui ver (adoro filmes de terror!) e gostei. Sempre bom ver como surgiu uma personagem tão famosa como o Drácula, se bem que nunca saberemos se foi assim que o Bram Stoker o imaginou. E confesso que também gostei muito de Luke Evans (o actor que faz de Vlad), muito mesmo. Já gostara dele no The Hobbit mas neste está muito mais interessante. Muito mesmo 🙂

You are going to be fine…

 

Ir fazer noite começa a ser cada vez mais um suplício. Se antes nunca me chateei com isso, e muitas vezes até as preferia em detrimento das tardes, desde que tenho os turnos de 12 horas que me custa imenso fazer o turno da noite. Passar o dia ambivalente entre sair e passear começando o turno cansada, ou ficar em casa e ter todo o tempo para pensar (no que devo e no que não devo), faz-me sentir uma angústia quase intolerável. E depois sair de casa pelas 18.30, demasiado cedo para jantar mas consciente que até conseguir parar e comer chega a meia noite, deixa-me num estado tal que não me consigo alegrar com nada.

Vou trabalhar como se carregasse o mundo nos meus ombros e ontem esta minha melancolia agravou-se pela chuva fria que caía, pelos dias que cada vez são mais curtos engolidos pela noite que surge antes das 19h e pelo facto do meu serviço ter fechado por ter poucos doentes e eu ter sido recambiada para o meu antigo. Cheguei ao serviço a reluzir pelas gotas de água espalhadas pelo casaco, calças e cabelo, para descobrir que a água das torneiras tinha muito pouca pressão o que deixou logo adivinhar umas quantas queixas (e com razão) dos pais dos miúdos internados. E como se não bastasse tudo isto, uma enfermeira não apareceu o que me deixou atrapalhada só com mais uma colega e a braços com montes de trabalho.

Foi um início de turno para esquecer, comemos algo muito rápida e sofregamente pelas 23h e antes da meia noite já tinha bebido uma coca cola, um cappuccino e caminhava para um segundo (a minha gastrite até deu pulos de contente!). Toda a noite de um lado para o outro e cheguei ao dia seguinte sem poder com uma gata pelo rabo e desejosa de bazar. Mas o sol deu um ar de sua graça e ainda fui a Victoria tomar o pequeno almoço com uma amiga, enquanto a chuva foi aparecendo meia tímida mas demonstrando que com o seu amigo vento veio para ficar.

E na pastelaria que tanto gosto deparo-me à entrada com este cartaz:

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Sem querer ser narcísica senti que a frase me era dirigida e animou-me um bocadinho, aliviando o peso da noite trabalhosa e com pouco pessoal (o croissant com queijo tostado, o latte e uma boa conversa em que despejei partilhei a frustração também ajudaram). Uma pessoa não quer andar à procura de sinais mas às vezes, nos sítios mais inesperados, encontramos algo que faz eco dentro de nós. Claro que podia ter ideias de grandeza e começar a achar que tudo me é dirigido e, inclusivé, achar que os apresentadores do telejornal estão falar directamente comigo, mas não é o caso, (até porque eu não tenho televisão) deu para sorrir e o dia pareceu logo melhorar.

 

Lord of the dance

Li algures que se colocarmos um relógio perto de um aquário, o seu tique taque é amplificado pela água e o coração do peixe tenta acompanhar o som, começa com disritmias e acaba por parar. O proverbial peixinho dourado morre só porque tenta acompanhar o ritmo do relógio.

A noite passada senti o mesmo… não me parece que tenha feito disritmias (e não morri) mas ao ouvir o matraquear cadenciado dos sapatos senti o coração a bater com força e o sangue a pulsar mais forte nas veias. Senti-me envolvida pela magia que parece evolar do palco: involuntariamente os meus pés tentavam acompanhar o ritmo (e o cavalheiro sentado atrás de mim também sapateava com entusiasmo, a atestar pelas sacudidelas que sentia na minha cadeira) e sentia-me emocionada com o talento dos dançarinos.

Adoro estes espectáculos e tudo o que os envolve: o planeamento, a antecipação e a concretização destas combinações que nos permitem conhecer um bocadinho mais da oferta cultural de Londres. Desta vez fomos ao Soho, ao London Palladium. Quando vi anunciado que o espectáculo do Lord of the dance estaria cá por pouco mais de um mês, fiquei logo com as antenas no ar.

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Riverdance surgiu pela primeira vez no intervalo do Festival da Eurovisão da Canção, em 1994, antes da votação final. Durou cerca de sete minutos, teve uma ovação em pé no final e marcou o início de dezenas de espectáculos que mostravam Michael Flatley e Jean Butler a dançar esta dança tradicional irlandesa. Não vi (e se fosse agora também não veria porque o tempo de estar sentada em frente à TV, com a tv guia aberta no colo para assentar em directo os pontos e ver quem ganhava, já passou há muito); mas assisti a um espectáculo ao vivo, quando o MEO Arena ainda se chamava Pavilhão Atlântico.

Adorei na altura, se bem que as cadeiras na plateia estivessem colocadas de um modo muito infeliz, todas no mesmo plano, o que fez com que durante todo o espectáculo a minha cabeça parecesse um sino a badalar de um lado para o outro, a tentar esquivar-me à cabeçuda que estava sentada à minha frente. Já lá vão muitos anos mas lembro-me bem pelo que achei que este era imperdível.

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E novamente foi inesquecível e adorei todos os bocadinhos… embora admita que nos momentos mais parados, quando tocavam o fiddle ou cantavam, me encostava para trás e deixava o olhar vaguear pelos veludos e brocados da sala. Desta vez não tinha cabeçudos à minha frente e mesmo no upper circle via bem o palco e ouvia nitidamente os taps-taps dos sapatos. E no final ainda tivemos direito a ver o próprio Michael Flatley no palco, a dançar para nós aquilo que tornou famoso para o mundo.

 

E quando saímos para o exterior já a noite caíra sobre Londres e pudemos ver as decorações de Natal que estão já penduradas sobre a Oxford Street (embora apagadas). Fomos envolvidos pela noite fria e deixámos para trás os dangerous games, que estarão por cá até dia 25 de Outubro…

O gang dos pelicanos

Nasce um dia de sol e eis a ver-nos sair para a rua para fazer fotossíntese. Por mais que nos adaptemos à imprevisibilidade climatérica de Londres, a verdade é que o sol a brilhar chama-nos ao exterior para passear e saborear o momento. Nem pensar em ficar em casa, por isso combinámos um brunch no Soho onde nos deleitámos com uma refeição faustosa para depois sentirmos necessidade de “desmoer” e aliviar a sensação de enfartamento.

O melhor é nem pensar nas calorias...

O melhor é nem pensar nas calorias…

Fomos descendo a rua, chegámos a Trafalgar Square e atravessámos o Admiralty Arch para o The Mall. A ideia era passear ao longo do lago, em St. James Park, ver os esquilos e as aves do parque, aproveitar o calorzinho que nesta quarta feira se fazia sentir.

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Perto da duck island avistámos os quatro pelicanos do parque que estavam agrupados à beira do lago. Deviam estar a planear IMG_4038algo porque, muito calmamente, começaram a andar na direcção da cerca onde estávamos, com um ar bamboleante e algo arrogante.

Foi vê-los aproximar-se em fila e ver tudo o que era pato, cisne, pombos e até corvos afastarem-se do seu caminho. Não sei bem qual a reputação destes bicharocos no meio dos seus companheiros de penas mas não me parece ser das melhores a atestar pelo comportamento dos outros.

E realmente, à nossa frente, um deles resolveu abocanhar à traição um pescoço de um patinho feio e foi ver um cisne vir lançado em defesa do irmão (ou filho. Ou o que for). Depois ficou muito eriçado a vigiar (à esquerda) mas o pelicano deve ter percebido a deixa e não voltou a armar-se em rufia…

IMG_4042E depois desta demonstração de poder e arrogância deixámos os bicharocos em confraternização para voltarmos a Trafalgar em busca de algo fresco que o sol anda mesmo por aqui 🙂

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A minha senhoria

Quando vim para Londres, como muitos antes (e depois) de mim, vivi num quarto. Um quarto com casa de banho privativo, mas “apenas” um quarto onde enfiei tudo aquilo que trouxe (e o que mais tarde veio de camião). Estive lá sete meses antes de encontrar um studio, não muito grande mas com aquilo que precisava: quarto, casa de banho, cozinha e até acesso livre ao jardim (tantas vezes que esse jardim foi utilizado em dias de calor).

An unexpected gift

An unexpected gift

A minha senhoria revelou-se uma simpatia, sempre prestável, até me ofereceu um barbecue quando lhe contei que estava a pensar fazer um. Assim, inesperadamente, num dia de Verão, estava eu sentada no jardim.

E eis que esta semana me lavou as janelas por fora e mandou- me uma mensagem a perguntar quando poderia lavar por dentro. Achei estranho mas como de dona de casa nada tenho, acabei por concordar e quando estava a trabalhar tratou disso. Disso e muito mais…

Chegadinha a casa vinda do trabalho (15 horas depois de sair) cheirou-me logo a lixívia, assim que abri a porta exterior. Lavou as janelas? Sim! Mas também limpou a casa de banho e a cozinha, e até lavou a loiça que tinha ficado do pequeno almoço!! Até me senti envergonhada, até porque às 6.30h da manhã a última coisa que me apetece é lavar loiça mas também não estava à espera que o fizesse.  Também trocou o saco do lixo e pôs um rolo de papel de cozinha novo que tinha acabado ontem mas que não tinha substituído porque ainda não tinha tido um dia livre para ir às compras.

E na casa de banho? Não só limpou o chuveiro e as loiças, como limpou o chão e pôs três rolos de papel higiénico novos naquele acessório para sobressalentes. Caramba, que exagero! Se eu tinha um rolo novo no local apropriado para quê pôr extras? Não iria acontecer ter uma vontade súbita e emergente e ficar apenas com uma folhinha na mão, tinha um rolo inteiro!!!

Com isto tudo já não sei se hei-de agradecer, ficar envergonhada ou assustada. Acho que só não veio ao quarto porque encostei a porta senão ainda ia dar com a gaveta da roupa interior arrumada e separada por cores!

Que a casa cheira a lavada, lá isso cheira mas… E ainda me ofereceu panos de cozinha e uma pega para o forno. Mas eu tenho isso!!! Qualquer dia acordo e tenho-a a pairar em cima de mim, a limpar o pó e a sacudir os tapetes. Ou a trocar os lençóis comigo lá deitada…

Pagar casa em Londres é a despesa maior que tenho e leva-me uma boa fatia do ordenado, mas nunca pensei que me iam limpar a casa desta maneira.

Ah well, obrigadinha… Acho eu….

I wish, I wish…

IMG_2178O dia prometia chuva e deixou-me indecisa onde ir, mas fui. Saí de casa sem o chapéu de chuva mas com o corta vento enfiado na mochila porque em Londres nunca se sabe quando a chuva começa a cair. Estava frio e o vento trazia o cheiro da terra molhada, mas as ruas da cidade continuavam secas.

Fui primeiro ao Soho, a uma paralela de Carnaby Street onde a multidão se atropela em frente às lojas. O meu destino era a Lomography store onde fui à procura de uma máquina fotográfica para oferecer como prenda de anos e onde fiquei mais de meia hora a namorar as inúmeras possibilidades (para mim, confesso).

Carnaby Street (@ Soho)

Carnaby Street (@ Soho)

Depois desci a rua e entrei na Regent´s Street, descendo em direcção a Picadilly. E numa fuga às gotas de água que começavam a cair atravessei a rua e entrei na Waterstone’s deixando para trás o bulício de Picadilly Circus e a confusão da hora de ponta.

IMG_1491Como adoro esta livraria com os seus vários andares cheios de livros que nos transportam para um mundo imaginário (ou não) de aventuras, romance e fantasia. Como adoro o seu ambiente tranquilo e as suas gentes que se encostam às estantes, se sentam nos diversos sofás espalhados, ou no chão, a folhear os vários mundos contidos em centenas de páginas. Ouve-se o suspiro dos livros a serem folheados, sente-se o aroma a novo que se desprende do papel, aquele aroma característico misto de tinta e papel que torna estes locais tão reconhecíveis…

Oh I wish, I wish ter uma livraria destas só minha,com livros a trepar até ao tecto e as portas abertas a quem quisesseIMG_0424 partilhar esta minha sede pelo conhecimento, este desejo de escape para outros mundos, para outras realidades, para algo diferente do habitual. E no meio de letras ter um espaço para parar e saborear um café e uma boa pastelaria, deixando que a vida continue lá fora enquanto lá dentro apenas interessa o momento…

I wish, I wish ter o dinheiro e a coragem de deixar o que habitualmente faço e me lançar num negócio que me alegre e me encha o espírito. Ter milhares de livros à minha volta e, quem sabe, ter nas paredes as fotografias que eu tanto gosto de tirar…

I wish, I wish…

Cappuccino, scones and booksQuem sabe, quem sabe…