Can you be happy for 100 days in a row?

Numa daquelas noites em que de repente o sono se escapuliu e eu dei por mim a olhar o tecto às 4h da manhã, liguei a net e pus-me a saltitar de site em site, de blog em blog. Num desses blogs deparei com uma referência a um site sobre 100 happy days (http://100happydays.com/) e resolvi perder um bocadinho da minha noite a ler sobre o que era, até porque me parecia bem mais interessante que olhar para os ponteiros do relógio a avançar.

O desafio proposto pelo site era encontrar todos os dias algo que proporcionasse felicidade para que pudêssemos dar mais valor à nossa vida, encontrando algo alegre mesmo quando tudo parece mais negro e tentar associar uma fotografia que o reflectisse. Achei muito interessante, até porque já tinha feito algo do género em 2012: tirei uma foto todos os dias, mesmo quando me sentia mais triste, para poder achar sempre algo pelo qual me sentisse grata e concluir que, afinal, a vida tem sempre algo de feliz para oferecer. Desisti seis meses depois de começar mas ficou sempre o bichinho pelo que resolvi embarcar no desafio em Abril.

Não se tratou de um concurso de felicidade nem de uma ostentação do nosso modo de vida, apenas uma maneira de perceber que se é feliz no meio da nossa vida preenchida e tantas vezes frenética. E se no início partilhava as minhas fotos no facebook pouco a pouco decidi torná-las mais privadas mantendo, no entanto, a minha colecção diária. E estes são os meus 100 happy days, cerca de 25 de cada vez, tirando-os dos meus arquivos pessoais e partilhando-os com quem os quiser ver.

1-6Um dia de sol … desfrutar de um livro num parque verdejante … saborear um cappuccino … voltar para casa depois de um turno caótico … um lanche no jardim … um café português em terras britânicas…

7-12… almoço de Páscoa entre amigos … gatos… aterrar em Lisboa … planear as próximas férias … Lisboa à chuva … voltar a casa …

13-18… chegar ao trabalho e sentir o frio da manhã a desaparecer … iniciar um novo livro … um cappuccino sobre Londres com uma vista fantástica e uma companhia agradável … o som do silêncio … acabar o livro deitada na relva … quando tudo parece negro lembrar que “tomorrow is another day” (já dizia a Scarlett O’ Hara)…

19-25… bolo de chocolate … lanche com uma amiga … a vida em câmara lenta … tuga lunch … rir até às lágrimas … dormir a sesta depois de ter acordado às 4h30 … o som da chuva …

Uma conversa edificante

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Algumas vezes conversar com algumas colegas é tudo menos estimulante. Falava eu da minha viagem de quatro dias a Paris, aproveitando que Londres está a apenas duas horas de distância de comboio, e uma colega diz que nunca foi a Paris porque não fala francês! Ora esta, eu também não! Nem francês, nem alemão, nem norueguês, nem checo, nem húngaro, nem mais uma dezena de outras línguas cujos países visitei e das quais só sei o olá, obrigada e adeus. Mas coitada de mim se isso me impedisse de viajar! Para começar nunca teria saído de Portugal, mas adiante.

Depois pergunta a outra:

“Onde vais ficar?”

“Montmartre”

Um olhar vazio da parte dela ao qual eu tento explicar:

É um dos bairros de Paris, tipo Mayfair ou Bloomsbury em Londres.”

“Ah…. Eu fiquei na Ópera. E que vais ver?”

“Bom, vou à Torre Eiffel porque alguns amigos nunca foram”

“Ah, eu não fui lá. Mas fui àquela torre muito alta, cheia de escritórios, com uma vista fantástica.”

“Ah, sei, Montparnasse?”

Novo olhar vazio da parte dela…

Passei ali um bocado a explicar, disse o nome devagar, escrevi num papel e mesmo assim nada. Acabei por ligar a net e com as fotografias do google eventualmente chegou lá.

“E também quero ir à Basílica de Sacré Coeur”, disse eu, tentando mais uma vez

Where?”, perguntou ela.

Explico o que é e onde fica: uma grande basílica num alto, com vista para a cidade, mas só quando traduzi à letra “The Basilica of the Sacred Heart” é que se fez luz:

“Ah yes, a kind of a church?” … Sim, pois, uma espécie de igreja… tipo isso…

Continuei a dizer que queria ir ao musée d’ Orsay e novo olhar estranho:

“Horses? You are going to see horses?”

E pronto, com esta fiquei muito mais culta e decidi acabar a conversa por aqui.

La Tour Eiffel

La Tour Eiffel

Tour Montparnasse

Tour Montparnasse

La Basilique du Sacré Coeur de Montmartre

La Basilique du Sacré Coeur de Montmartre

Musée d' Orsay

Musée d’ Orsay

 

Um domingo caseiro…

… que remédio!

Estar de folga ao domingo é bom, muito bom. Mas às vezes é absolutamente irritante, especialmente quando lá fora está frio e parece que vai chover a qualquer momento, o que faz adiar uma ida ao parque para ler esticada na relva ou sentada num banco a aproveitar os raios de sol. Isto porque a relva está húmida e fria e o sol há muito se escondeu.

Por isso fico em casa, andando em modo lesma. Depois de três noites a trabalhar tento reequilibrar os meus ritmos circadianos apenas numa folga, antes de recomeçar a rotina diária de casa-trabalho/trabalho-casa. Não é de todo mau, mas acabei de ler “Retrato de uma espia” há uns dias e ainda não me decidi que ler a seguir, precisava de estudar mas não me apetece, a casa está a precisar de ser limpa mas é um abooooorrecimento fazê-lo (e um desperdício de folga), não tenho televisão inglesa e a da net parece nada passar de interessante, os meus amigos parecem estar a trabalhar (os solteiros) ou ocupados com filhos (os casados). Definitivamente este é um dia em que faça o que fizer parece ser sempre uma chatice, em que nada parece apelativo ou interessante. É o que acontece quando se trabalha muitos dias seguidos e depois se tenta recuperar num único dia… Difícil e boring

Já sei que vai ser um dia dedicado ao sofá e à moleza… nada de mal nisso, por vezes sabe bem um dia mais tranquilo, mas já sei que lá para o final do dia vou finalmente arrebitar e encher-me de energia, mas nessa altura, nesta cidade cosmopolita, nada parece haver para fazer. Incrível? Parece, mas…

  • precisava ir ao IKEA – fecha às 17h
  • centros comerciais? – fecham às 18h. Todas as lojas, excepto os cinemas!!! Ir beber um café e fazer tempo para o cinema? não há onde beber um!! O filme que quero ver só tem sessão perto das 19h e não há nenhum sítio para queimar o tempo…
  • andar por aqui e ir mais tarde beber um café a uma delicatessen portuguesa que existe aqui perto? Fecha às 17h
  • ir até ao Costa? A maioria fecha às 18h (vá, há alguns que fecham às 20h ou 21h, mas são no centro e não me apetece ir até lá… sim, eu sei, estou a complicar mas realmente não me apetece!)
  • Starbucks? No centro…
  • Aproveitar para ir ao supermercado? Sainsbury’s e Waitrose fecham às 17h ou mais tardar às 18h… e o mesmo se passa com os pequenos supermercados…
  • Compras? As grandes lojas – Selfridges, Debenhams, John Lewis, Marks & Spencer – fecham às 18h…

Parece impossível mas nesta grande cidade tudo fecha cedo e nestes dias de chuva e frio em que os dias cada vez encurtam mais e a noite chega depressa, parece que não há nada para fazer. E quando se alia um estado de espírito mais preguiçoso e apático, temos um dia aborrecido. Gostava de ter talento para pintar. Ia para uma falésia algures, pintar as ondas açoitadas pelo vento, numa paisagem feita de céu tempestuoso e a ameaçar chuva. Mas não tenho talento para isso, não há falésias aqui por perto e muito menos ondas, revoltosas ou tranquilas.

E com isto vou-me aborrecendo, o tempo vai passando, daqui a pouco chega a noite, a folga acabou e o dia de trabalho vai chegar num ápice..

hourglassAcabei por sair de casa mas até ir ao cinema às vezes torna-se uma aventura.

As nuvens, que todo o dia se contiveram, finalmente despejaram a chuva na terra assim que saí porta fora. Ainda fiz parte do caminho sob aquela chuva miudinha as que os ingleses chamam drizzle, mas tive de me resignar ao facto da chuva continuar a cair e abri finalmente a sombrinha.

photo(1)Parei no Costa que afinal estava aberto até às 20h e fiquei uns minutos sentada, a apreciar um espresso e a ver as vistas (nada de muito interessante, mas estas pausas sabem sempre bem).

Fui depois apanhar o autocarro mas enganei-me e em vez do 32 apanhei o 332. Só quando virou para a esquerda em vez de continuar em frente é que desconfiei e por entre passageiros encasacados tentei ver para lá das janelas embaciadas, a ver se reconhecia onde ia. Nada reconheci e saí na paragem a seguir; abri o site da tfl e ao ver o percurso especificado percebi que aquele autocarro também dava, só tinha de ter saído… logo na paragem seguinte.

Fiquei à espera do autocarro (novamente), entrei e saí onde devia. Ainda fiquei indecisa mas perguntei a uma outra passageira que saíra comigo (e que falava português!) que me indicou a direcção correcta e lá fui eu.

Dei bem com o sítio, sacudi o guarda chuva, pedi o bilhete e cedi a um pacote grande de pipocas às quais dei um bom avanço enquanto esperava pelo início do filme (temos de aguentar meia hora de publicidade – sim, meia hora!! – antes do filme realmente começar). E quase duas horas depois, quando saí, a chuva continuava a cair e eu lembrei-me que tinha deixado roupa a secar.dracula-untold-0v

Foi este o filme que fui ver (adoro filmes de terror!) e gostei. Sempre bom ver como surgiu uma personagem tão famosa como o Drácula, se bem que nunca saberemos se foi assim que o Bram Stoker o imaginou. E confesso que também gostei muito de Luke Evans (o actor que faz de Vlad), muito mesmo. Já gostara dele no The Hobbit mas neste está muito mais interessante. Muito mesmo 🙂

You are going to be fine…

 

Ir fazer noite começa a ser cada vez mais um suplício. Se antes nunca me chateei com isso, e muitas vezes até as preferia em detrimento das tardes, desde que tenho os turnos de 12 horas que me custa imenso fazer o turno da noite. Passar o dia ambivalente entre sair e passear começando o turno cansada, ou ficar em casa e ter todo o tempo para pensar (no que devo e no que não devo), faz-me sentir uma angústia quase intolerável. E depois sair de casa pelas 18.30, demasiado cedo para jantar mas consciente que até conseguir parar e comer chega a meia noite, deixa-me num estado tal que não me consigo alegrar com nada.

Vou trabalhar como se carregasse o mundo nos meus ombros e ontem esta minha melancolia agravou-se pela chuva fria que caía, pelos dias que cada vez são mais curtos engolidos pela noite que surge antes das 19h e pelo facto do meu serviço ter fechado por ter poucos doentes e eu ter sido recambiada para o meu antigo. Cheguei ao serviço a reluzir pelas gotas de água espalhadas pelo casaco, calças e cabelo, para descobrir que a água das torneiras tinha muito pouca pressão o que deixou logo adivinhar umas quantas queixas (e com razão) dos pais dos miúdos internados. E como se não bastasse tudo isto, uma enfermeira não apareceu o que me deixou atrapalhada só com mais uma colega e a braços com montes de trabalho.

Foi um início de turno para esquecer, comemos algo muito rápida e sofregamente pelas 23h e antes da meia noite já tinha bebido uma coca cola, um cappuccino e caminhava para um segundo (a minha gastrite até deu pulos de contente!). Toda a noite de um lado para o outro e cheguei ao dia seguinte sem poder com uma gata pelo rabo e desejosa de bazar. Mas o sol deu um ar de sua graça e ainda fui a Victoria tomar o pequeno almoço com uma amiga, enquanto a chuva foi aparecendo meia tímida mas demonstrando que com o seu amigo vento veio para ficar.

E na pastelaria que tanto gosto deparo-me à entrada com este cartaz:

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Sem querer ser narcísica senti que a frase me era dirigida e animou-me um bocadinho, aliviando o peso da noite trabalhosa e com pouco pessoal (o croissant com queijo tostado, o latte e uma boa conversa em que despejei partilhei a frustração também ajudaram). Uma pessoa não quer andar à procura de sinais mas às vezes, nos sítios mais inesperados, encontramos algo que faz eco dentro de nós. Claro que podia ter ideias de grandeza e começar a achar que tudo me é dirigido e, inclusivé, achar que os apresentadores do telejornal estão falar directamente comigo, mas não é o caso, (até porque eu não tenho televisão) deu para sorrir e o dia pareceu logo melhorar.

 

Lord of the dance

Li algures que se colocarmos um relógio perto de um aquário, o seu tique taque é amplificado pela água e o coração do peixe tenta acompanhar o som, começa com disritmias e acaba por parar. O proverbial peixinho dourado morre só porque tenta acompanhar o ritmo do relógio.

A noite passada senti o mesmo… não me parece que tenha feito disritmias (e não morri) mas ao ouvir o matraquear cadenciado dos sapatos senti o coração a bater com força e o sangue a pulsar mais forte nas veias. Senti-me envolvida pela magia que parece evolar do palco: involuntariamente os meus pés tentavam acompanhar o ritmo (e o cavalheiro sentado atrás de mim também sapateava com entusiasmo, a atestar pelas sacudidelas que sentia na minha cadeira) e sentia-me emocionada com o talento dos dançarinos.

Adoro estes espectáculos e tudo o que os envolve: o planeamento, a antecipação e a concretização destas combinações que nos permitem conhecer um bocadinho mais da oferta cultural de Londres. Desta vez fomos ao Soho, ao London Palladium. Quando vi anunciado que o espectáculo do Lord of the dance estaria cá por pouco mais de um mês, fiquei logo com as antenas no ar.

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Riverdance surgiu pela primeira vez no intervalo do Festival da Eurovisão da Canção, em 1994, antes da votação final. Durou cerca de sete minutos, teve uma ovação em pé no final e marcou o início de dezenas de espectáculos que mostravam Michael Flatley e Jean Butler a dançar esta dança tradicional irlandesa. Não vi (e se fosse agora também não veria porque o tempo de estar sentada em frente à TV, com a tv guia aberta no colo para assentar em directo os pontos e ver quem ganhava, já passou há muito); mas assisti a um espectáculo ao vivo, quando o MEO Arena ainda se chamava Pavilhão Atlântico.

Adorei na altura, se bem que as cadeiras na plateia estivessem colocadas de um modo muito infeliz, todas no mesmo plano, o que fez com que durante todo o espectáculo a minha cabeça parecesse um sino a badalar de um lado para o outro, a tentar esquivar-me à cabeçuda que estava sentada à minha frente. Já lá vão muitos anos mas lembro-me bem pelo que achei que este era imperdível.

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E novamente foi inesquecível e adorei todos os bocadinhos… embora admita que nos momentos mais parados, quando tocavam o fiddle ou cantavam, me encostava para trás e deixava o olhar vaguear pelos veludos e brocados da sala. Desta vez não tinha cabeçudos à minha frente e mesmo no upper circle via bem o palco e ouvia nitidamente os taps-taps dos sapatos. E no final ainda tivemos direito a ver o próprio Michael Flatley no palco, a dançar para nós aquilo que tornou famoso para o mundo.

 

E quando saímos para o exterior já a noite caíra sobre Londres e pudemos ver as decorações de Natal que estão já penduradas sobre a Oxford Street (embora apagadas). Fomos envolvidos pela noite fria e deixámos para trás os dangerous games, que estarão por cá até dia 25 de Outubro…

Frozen

A Alice fez quatro anos e escolheu para tema da festa o “Frozen”

O bolo de anos

O bolo de anos

Confesso que não vi o filme… foi uma das estreias no ano passado e numa tarde que tinha livre escolhi o Hobbit em detrimento das aventuras de Anna, Elsa, Kristoff e… mais algumas personagens que não sei o nome… embora saiba da existência de uma rena que, por sinal, fez muito sucesso na festa.

IMG_4202E também há um boneco e neve e… um princípe?

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Mas a estrela da festa não foi a Elsa nem a Anna mas a Alice que quatro anos depois de ter nascido em Lisboa veio festejar o seu quarto aniversário em Londres, a cidade que é sua desde os nove meses. IMG_4302

E nesta coisa de festas infantis temáticas que tem vindo a crescer a olhos vistos nos últimos anos, a festa foi nos tons  frios que caracterizam uma paisagem gelada: azul, verde água, lilás, branco…

Mas longe de ser uma festa fria foi, pelo contrário, quente de ternura e animação, com cerca de vinte e tal miúdos a saltar e a pular com aquela energia inesgotável que os parece caracterizar sempre. E por todo o lado se ouviam expressões de espanto pela delicadeza e imaginação dos pormenores que fizeram desta festa o sucesso que foi…

IMG_4294Diferente das festas infantis em que participei quando miúda, onde não havia nada de temas e a folia se prolongava até altas horas, ou pelo menos até os pais irem buscar a criançada. Foi numa destas festas que provei um pudim que detestei mas que comi todo porque ouvi um raspanete da mãe da aniversariante: “se começaste, tens de acabar”. Acabei-o horrivelmente enjoada e nunca mais fui capaz de comer pudim de morango, da marca Boca Doce. Por mais que digam que é bom, a verdade é que associo sempre àquele que comi quando tinha uns 9 anos e não consegui voltar a repetir. 

Docinhos por fora, frutosos por dentro

Docinhos por fora, frutosos por dentro

Mas quando os miúdos pegaram nesta espécie de cake pops gigantes e comeram o exterior feito de açúcar deixando o interior (uma maçã), ninguém lhes disse “agora tens de acabar”. Parece que realmente os tempos mudaram 😉

IMG_4298E nos detalhes de cada doce fica a lembrança de uma festa gelada, mas bela na sua originalidade…

Gelatina azul...

Gelatina azul…

"Neve derretida"

“Neve derretida”

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Brigadeiros de chocolate branco

Brigadeiros de chocolate branco

As cores da festa

As cores da festa

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garfosE no meio de um mundo infantil, ainda houve espaço para os adultos saborearem algo enquanto a festa prosseguia…

Alguns dos acepipes para os adultos (que algumas crianças também gostaram...)

Alguns dos acepipes para os adultos (que algumas crianças também gostaram…)

E na hora da despedida houve direito a umas lembranças, tanto para miúdos como para graúdos:

Neve instantânea para as crianças e bolachinhas para os adultos

Neve instantânea para as crianças e bolachinhas para os adultos

E não se pense que a festa teve o contributo de uma qualquer empresa organizadora de eventos, porque não teve. Teve, sim, o talento de alguém que adora estes pequenos mimos e que perdoa o facto de alguém deixar a gelatina a meio sem a acabar (sim, foi um trauma, admito). Quase dá vontade de fazer uma festa deste género só porque sim. Quem sabe, afinal vem aí o Halloween e o Natal vai chegar num abrir e fechar de olhos…

IMG_4196E agora deixem-me ir ver o filme para pelo menos saber o nome das personagens.

E parabéns Alice, mais uma vez!

 

 

O gang dos pelicanos

Nasce um dia de sol e eis a ver-nos sair para a rua para fazer fotossíntese. Por mais que nos adaptemos à imprevisibilidade climatérica de Londres, a verdade é que o sol a brilhar chama-nos ao exterior para passear e saborear o momento. Nem pensar em ficar em casa, por isso combinámos um brunch no Soho onde nos deleitámos com uma refeição faustosa para depois sentirmos necessidade de “desmoer” e aliviar a sensação de enfartamento.

O melhor é nem pensar nas calorias...

O melhor é nem pensar nas calorias…

Fomos descendo a rua, chegámos a Trafalgar Square e atravessámos o Admiralty Arch para o The Mall. A ideia era passear ao longo do lago, em St. James Park, ver os esquilos e as aves do parque, aproveitar o calorzinho que nesta quarta feira se fazia sentir.

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Perto da duck island avistámos os quatro pelicanos do parque que estavam agrupados à beira do lago. Deviam estar a planear IMG_4038algo porque, muito calmamente, começaram a andar na direcção da cerca onde estávamos, com um ar bamboleante e algo arrogante.

Foi vê-los aproximar-se em fila e ver tudo o que era pato, cisne, pombos e até corvos afastarem-se do seu caminho. Não sei bem qual a reputação destes bicharocos no meio dos seus companheiros de penas mas não me parece ser das melhores a atestar pelo comportamento dos outros.

E realmente, à nossa frente, um deles resolveu abocanhar à traição um pescoço de um patinho feio e foi ver um cisne vir lançado em defesa do irmão (ou filho. Ou o que for). Depois ficou muito eriçado a vigiar (à esquerda) mas o pelicano deve ter percebido a deixa e não voltou a armar-se em rufia…

IMG_4042E depois desta demonstração de poder e arrogância deixámos os bicharocos em confraternização para voltarmos a Trafalgar em busca de algo fresco que o sol anda mesmo por aqui 🙂

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A minha senhoria

Quando vim para Londres, como muitos antes (e depois) de mim, vivi num quarto. Um quarto com casa de banho privativo, mas “apenas” um quarto onde enfiei tudo aquilo que trouxe (e o que mais tarde veio de camião). Estive lá sete meses antes de encontrar um studio, não muito grande mas com aquilo que precisava: quarto, casa de banho, cozinha e até acesso livre ao jardim (tantas vezes que esse jardim foi utilizado em dias de calor).

An unexpected gift

An unexpected gift

A minha senhoria revelou-se uma simpatia, sempre prestável, até me ofereceu um barbecue quando lhe contei que estava a pensar fazer um. Assim, inesperadamente, num dia de Verão, estava eu sentada no jardim.

E eis que esta semana me lavou as janelas por fora e mandou- me uma mensagem a perguntar quando poderia lavar por dentro. Achei estranho mas como de dona de casa nada tenho, acabei por concordar e quando estava a trabalhar tratou disso. Disso e muito mais…

Chegadinha a casa vinda do trabalho (15 horas depois de sair) cheirou-me logo a lixívia, assim que abri a porta exterior. Lavou as janelas? Sim! Mas também limpou a casa de banho e a cozinha, e até lavou a loiça que tinha ficado do pequeno almoço!! Até me senti envergonhada, até porque às 6.30h da manhã a última coisa que me apetece é lavar loiça mas também não estava à espera que o fizesse.  Também trocou o saco do lixo e pôs um rolo de papel de cozinha novo que tinha acabado ontem mas que não tinha substituído porque ainda não tinha tido um dia livre para ir às compras.

E na casa de banho? Não só limpou o chuveiro e as loiças, como limpou o chão e pôs três rolos de papel higiénico novos naquele acessório para sobressalentes. Caramba, que exagero! Se eu tinha um rolo novo no local apropriado para quê pôr extras? Não iria acontecer ter uma vontade súbita e emergente e ficar apenas com uma folhinha na mão, tinha um rolo inteiro!!!

Com isto tudo já não sei se hei-de agradecer, ficar envergonhada ou assustada. Acho que só não veio ao quarto porque encostei a porta senão ainda ia dar com a gaveta da roupa interior arrumada e separada por cores!

Que a casa cheira a lavada, lá isso cheira mas… E ainda me ofereceu panos de cozinha e uma pega para o forno. Mas eu tenho isso!!! Qualquer dia acordo e tenho-a a pairar em cima de mim, a limpar o pó e a sacudir os tapetes. Ou a trocar os lençóis comigo lá deitada…

Pagar casa em Londres é a despesa maior que tenho e leva-me uma boa fatia do ordenado, mas nunca pensei que me iam limpar a casa desta maneira.

Ah well, obrigadinha… Acho eu….

365 dias…

1Durante mais de uma década trabalhei no serviço de pediatria do IPO de Lisboa. Durante esse tempo habituei-me ao arregalar de olhos e à pergunta recorrente “como é que consegues?”. E de todas as vezes dava a mesma resposta: “oncologia é mesmo assim, ou se ama ou se odeia.” Não direi que amava mas gostava, e muito, e ainda gosto. Mas na nossa vida por vezes chega a hora de deixar para trás o que consideramos ser seguro (por mais subjectivo que isso seja) e temos de partir. E esse momento chegou para mim há 365 dias…

Quando penso na pediatria penso com saudade mas com tranquilidade, porque sinto mesmo que o meu tempo naquele serviço terminou. Não olho saudosa para as fotografias nem reflicto lamuriosa sobre o passado, em vez disso consigo recordar e sorrir (tomara que fosse assim com tudo o resto) sobre o que vivi naqueles longos corredores, com aqueles meninos e pais, com os colegas e todos aqueles com quem me cruzei nestes anos todos.

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De certa forma eu já fazia parte da mobília. Aqueles corredores eram-me familiares como a minha própria casa (penso, até, que foi onde passei mais tempo), sabia de cor onde ficavam os quartos e conseguia ir às escuras até aos locais mais recônditos, como a unidade de isolamento. Atravessei várias obras, fui várias vezes desterrada para o 4º e 6º andares quando uma das alas era encerrada (e, ao contrário de muitas colegas, gostei. Tantas foram as noites que passei a ver a “Anatomia de Grey” que agora, de cada vez que ouço o genérico, recuo no tempo e volto a estar fechada entre cortinas, paredes meias com pais e crianças, enquanto os earphones despejam aqueles acordes tão familiares), passei lá muitos natais e algumas passagens de ano e era de tal modo familiar aquele ambiente que era natural fazer um desvio até à copa e tirar uns quantos flocos de chocapic que se iam mastigando a caminho da sala de trabalho.

Consigo recordar com um sorriso os filmes que víamos durante as noites, e sou do tempo (ai, ai) em que só tínhamos rádio para passar o tempo. Depois veio a TV (sempre 24 horas ligada), o vídeo e depois o DVD; os computadores ocuparam o centro da nossa mesa (e da nossa vida) e sentimos na pele a febre do messenger e do facebook: de repente a conversa passou a ser sobre semear e colher alimentos, tratar dos animais e criar verdadeiras obras de arte em quintas virtuais. Estava aberta a moda da farmville e toda a gente era vizinho de toda a gente, falando de colher tomates como quem falava de ir às compras. E como todas as modas até essa se desvaneceu, dando lugar ao candy crush, ao pinterest, instagram e outras tantas redes sociais. Passar o turno com a internet ligada passou a ser um habituée (o que exasperava algumas pessoas. E às vezes a mim também).

4Assisti a muitos casamentos, acompanhando as noivas na sua ansiedade pré matrimonial de preparativos e muitas dores de cabeça. Fiz parte da Comissão Organizadora de Prendas de Grande Porte que se ocupava em reunir dinheiro para oferecer a noite de núpcias aos noivos; vi nascer muita criança, sobrinhos emprestados que continuo a ver crescer, embora longe; vi namoros começarem e acabarem entre muita choradeira e tristeza; vi dietas iniciadas, interrompidas, reiniciadas; fui ouvinte paciente de muitas confindências e de notícias bombásticas sussurradas em segredo…

5 Tivemos ceias memoráveis compostas de frango assado, batatas fritas, coca colas e doces, muito doces.

Até na copa se assou chouriço em álcool num porco de barro que se deve ter perdido no tempo e nas obras.

Quem nos quisesse ver felizes era à volta de uma mesa, partilhando saborosas iguarias entre conversa e gargalhadas.6

 

 

 

Festas de anos, jantares de Natal, despedidas de solteiras, todas as razões eram boas para festejar em conjunto.

789Com o passar do tempo vieram as festas de anos infantis e, pouco a pouco, as saídas foram começando a rarear, fosse porque a vida não o permitisse entre horários sobrecarregados e sobrepostos, porque os deveres parentais a isso obrigavam ou porque a crise económica o impedisse. Disso tenho saudades… daquelas saídas em conjunto em que se comia até não se poder mais e se ria até às lágrimas, das conversas intermináveis, dos desabafos, da irritação que nos fazia fumegar em conjunto (“não estamos a falar mal, estamos só a desabafar”), das idas ao cinema depois de uma tarde, dos almoços antes de ir trabalhar, daqueles pequeno-almoços intermináveis depois dos turnos da noite. Que saudades do bar, com aquelas torradinhas em pão caseiro ou do pãozinho quente acabado de sair do forno com queijo fresco, do galão ou do sumo de laranja, das empadas de galinha… e da conversa, principalmente da conversa, mesmo aquela ensonada antes de nos dirigirmos para o carro para voltarmos para casa, para ir dormir. 10

Penso que disso guardei o melhor para mim, porque quando volto a Portugal é sempre uma razão para estarmos novamente juntas, tornando-me de novo a ouvinte paciente enquanto todas ventilam a sua irritação à minha volta, rindo de novo até chorar, sabendo das novidades de quem deixei de ver. Pouco a pouco as notícias vão enfranquecendo… é mesmo assim, as distâncias criam as suas regras incontornáveis e dia após dia a nossa realidade vai-nos afastando. Continuamos a falar a mesma língua mas já não nos entendemos tão bem: as private jokes tornaram-se mesmo privadas e perco o fio à meada quando ouço o que se passa; deixei de conhecer algumas enfermeiras porque no último ano muitas que conheci saíram para outros serviços ou outros países, e deixei de perceber o que se passa quando leio alguns comentários nas redes sociais.

DSC_0465Com algumas o contacto mantém-se pois as tecnologias são do melhor que há nestes tempos modernos: Whatsapp, e-mail ou skype, continua a haver um fio condutor que nos une mesmo estando consciente que esse fio poderá enfraquecer. Porque eu já não pertenço ao mundo do IPO e o meu mundo tornou-se distante e algo romântico. Sou a protagonista improvável de aventuras, falando numa língua diferente, se bem que compreensível para todos; sou aquela que deixou o sol procurando algo a mais de 1500km de distância; sou a chefe de equipa que deixou de o ser, para sê-lo novamente numa outra pediatria; sou alguém que passou a ver o Big Ben de forma rotineira mas deixou de ter praias de areia fina ao seu alcance; alguém que deixou de ter torradas e passou a ter scones, que trocou o lanche pelo afternoon tea e os turnos de 8 horas pelos de 12.

Mas espero que saibam que mesmo longe, falando uma outra língua e vivendo uma outra realidade, há momentos que permanecerão muito nossos e nos unem. E que mesmo a mais de 1000km de distância, vivendo numa terra de princípes e princesas em que a rainha tem o mesmo nome que eu, serei sempre uma ouvinte paciente e o meu coração terá sempre um cantinho para todas. E quando voltar a portugal, sempre que voltar, espero ver o vosso sorriso, ouvir a vossa voz e partilhar alguns momentos que fazem da nossa vida aquilo que ela foi/é.

polónia;mónica;relaxamento 100