Então e agora?

O Natal passou e o frio regressou. Realmente foi como se passado o dia 25 a magia desaparecesse. De repente parece que as luzes ligadas já não assim tão acolhedoras, experimentar receitas deixou de ser um desafio aliciante e o cheiro ténue a fritos que ainda se adivinha no ar deixou de lembrar Natais passados…

A semana entre o Natal e o ano novo foi sempre muito difícil para mim: é a altura que se pára para pensar no ano que passou e chega-se à conclusão que pouca coisa se alterou. Por vezes penso tanto que parece que a minha mente entra numa espiral imparável, num ciclo vicioso e infinito: detesto fazer noites, não me apetece trabalhar, a minha vida não sai disto, destesto a minha vida. Claro que não detesto a minha vida mas sinto-a num beco sem saída, o que acaba por ser a história da minha vida: não estou satisfeita, parece que estou cronicamente à procura de algo, estou sempre a reclamar mas nada faço para mudar. Comentava isto esta noite ao que me responderam com o habitual:

Tens de ver o lado positivo da vida…

– Pois, pois… (Porque será que dizem sempre isto? Não saberão que quando se está em baixo é precisamente o lado positivo da vida que não se consegue ver? Por isso se está em baixo!)

Sério! Senão vê: mudaste de país…

– Isso foi no ano passado…

Bem, foste promovida…

– Isso foi no ano passado…

Foste transferida…

– Bom, ok, realmente isso foi este ano, mas parece que fora isso nada mudou!!

Continuei envolvida numa relação sem futuro, continuei a reclamar das horas de trabalho e dos turnos longos, continuei a oscilar entre uma tristeza incapacitante e uma tranquilidade temporária… É verdade que fui transferida, mudei de casa, vendi o carro e aluguei a minha casa em Portugal aliviando despesas; conheci países novos e reatei velhos conhecimentos; assisti a espectáculos de cortar a respiração e de elevar a alma, e defendi finalmente a minha tese com um orgulhoso 19 mas continuo a achar que foi pouco, que podia ter sido mais. Pode sempre ser mais…

IMG_6461Claro que não disse isto tudo, mas pensei… E parece que custa mais depois do Natal quando num dia vivemos intensamente, comemos como se o mundo fosse acabar no dia seguinte (e se acabar que se morra de barriga cheia), estivemos com amigos e abrimos presentes para depois voltarmos à vida real.

A véspera de Natal foi um misto de menú inglês com português onde a refeição foi muito inglesa com perú no forno (nunca pensei sentir a falta do bacalhau cozido com batatas e couve) acompanhado de cranberry sauce, batatas e parsnips (patinascas) no forno, antecedido de chicória com pêra e queijo roquefort com óleo de nozes mas o resto foi muito português e tudo homemade: sonhos daqueles que empestam a casa por serem fritos mas que nos fazem crescer água na boca e reavivam memórias, broas castelar saídas directamente do forno para a mesa, bolo rei que vemos levedar, cozer e depois saboreamos (mesmo aqui a esquisita que põe de lado todas as frutas cristalizadas que encontra); mousse de chocolate e leite creme e, claro, café (n)espresso para finalizar. Como aqui não há disto à venda em cada esquina passámos a véspera de Natal de volta do forno e a encher a casa de aromas muito portugueses… Foi bom, tranquilo e antecedeu um dia de Natal soalheiro embora frio.

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E foi na tarde do dia de Natal que tive de dar por encerradas as festas saindo para a cidade de Londres que neste dia parece quase fantasma: não há transportes públicos desde a meia noite de dia 24 às oito e meia da manhã de dia 26. Durante todo o dia 25 os autocarros são inexistentes, o metro não abre as portas, os comboios não circulam. Vai-se onde se tem de ir no dia 24 e fica-se lá; enquanto as badaladas da meia noite se esvanecem no ar assim a circulação rodoviária se suspende. Só quem tem carro se desloca pela cidade.

Ou quem anda a pé.

Ou de bicicleta.

Ou, tal como eu, de táxi porque os hospitais não fecham e as doenças não sabem o que são feriados. E por isso vai-se trabalhar, e volta-se a fazê-lo no dia seguinte e quase sem nos apercebermos o Natal passou e vemo-nos rodeados pela euforia da passagem de ano e pela quase obrigação de termos de nos divertir, de sair para a rua e nos embebedarmos. Porque na passagem de ano temos de nos divertir, tal como no Natal temos de estar com a família!! O problema surge quando não nos apetece divertir e a família está longe ou, por vezes, está perto mas não é de todo o que se vê nos filmes ou como se anuncia na TV. E depois? Como fazemos?

Há dias em que…

Este ano tive alguma dificuldade em entrar no espírito de Natal. Nao obstante onde quer que fosse o Natal se me entrar pelos olhos (e pelos ouvidos) a dentro, em casa as decorações continuavam guardadas. Era frequente ser acometida por uma angústia aparentemente inexplicável que me desmotivava e entristecia; não me conseguia convencer a decorar a casa perguntando-me com frequência “para quê?”. E por isso a casa permanecia despida de ornamentos e qualquer alusão ao Natal ficava para lá da porta da entrada. Nem os meus senhorios decoraram a casa porque são judeus e por isso não festejam o Natal.

Comecei a questionar-me sobre tudo: a minha árvore de dois metros que vi reduzida a 50cm quando me mudei para cá (pela falta de espaço); a minha família longe; o segundo Natal passado fora de casa…. Houve uma altura que até a música me parecia ferir os ouvidos e cheguei a andar de earphones nas lojas só para não a ouvir. Tive, por isso, alguma dificuldade em sorrir e be merry quando só me apetecia hibernar e acordar em 2015.

IMG_6415Depois, numa tarde sem nenhuma razão em particular, resolvi espalhar umas luzes pela casa; chegaram as minha luzes be happy da Holanda e a casa ficou banhada numa acolhedora luminosidade difusa e sem ainda me decidir a tirar a árvore da caixa pus um boneco de neve à porta de casa mesmo correndo o risco de se partir com a alegria esfuziante de Harry ou a bonomia possante de Charlie (os meus vizinhos caninos).

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E meia reconciliada com a vida, eventualmente, tirei a árvore para a luz do dia e pus uma coroa na janela com luzinhas. Seguiu-se uma alusão ao presépio, umas velas a bruxulear, experiências na cozinha que espalharam um aroma doce pela casa e uns telefonemas para casa que encurtaram a distância entre mim e eles e me animaram um bocadinho, e pouco a pouco senti-me mais tranquila e, quase receio dizê-lo, em paz.

Por vezes ainda me pergunto “para quê?” mas depois respondo: “porque sim. Simplesmente porque sim. Porque posso estar longe e sozinha mas eu também mereço e gosto do Natal.” E todos os dias repito isso e afinal não foi preciso hibernar…

IMG_6509Mas que há dias em que custa muito, isso sem dúvida…

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365 dias…

1Durante mais de uma década trabalhei no serviço de pediatria do IPO de Lisboa. Durante esse tempo habituei-me ao arregalar de olhos e à pergunta recorrente “como é que consegues?”. E de todas as vezes dava a mesma resposta: “oncologia é mesmo assim, ou se ama ou se odeia.” Não direi que amava mas gostava, e muito, e ainda gosto. Mas na nossa vida por vezes chega a hora de deixar para trás o que consideramos ser seguro (por mais subjectivo que isso seja) e temos de partir. E esse momento chegou para mim há 365 dias…

Quando penso na pediatria penso com saudade mas com tranquilidade, porque sinto mesmo que o meu tempo naquele serviço terminou. Não olho saudosa para as fotografias nem reflicto lamuriosa sobre o passado, em vez disso consigo recordar e sorrir (tomara que fosse assim com tudo o resto) sobre o que vivi naqueles longos corredores, com aqueles meninos e pais, com os colegas e todos aqueles com quem me cruzei nestes anos todos.

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De certa forma eu já fazia parte da mobília. Aqueles corredores eram-me familiares como a minha própria casa (penso, até, que foi onde passei mais tempo), sabia de cor onde ficavam os quartos e conseguia ir às escuras até aos locais mais recônditos, como a unidade de isolamento. Atravessei várias obras, fui várias vezes desterrada para o 4º e 6º andares quando uma das alas era encerrada (e, ao contrário de muitas colegas, gostei. Tantas foram as noites que passei a ver a “Anatomia de Grey” que agora, de cada vez que ouço o genérico, recuo no tempo e volto a estar fechada entre cortinas, paredes meias com pais e crianças, enquanto os earphones despejam aqueles acordes tão familiares), passei lá muitos natais e algumas passagens de ano e era de tal modo familiar aquele ambiente que era natural fazer um desvio até à copa e tirar uns quantos flocos de chocapic que se iam mastigando a caminho da sala de trabalho.

Consigo recordar com um sorriso os filmes que víamos durante as noites, e sou do tempo (ai, ai) em que só tínhamos rádio para passar o tempo. Depois veio a TV (sempre 24 horas ligada), o vídeo e depois o DVD; os computadores ocuparam o centro da nossa mesa (e da nossa vida) e sentimos na pele a febre do messenger e do facebook: de repente a conversa passou a ser sobre semear e colher alimentos, tratar dos animais e criar verdadeiras obras de arte em quintas virtuais. Estava aberta a moda da farmville e toda a gente era vizinho de toda a gente, falando de colher tomates como quem falava de ir às compras. E como todas as modas até essa se desvaneceu, dando lugar ao candy crush, ao pinterest, instagram e outras tantas redes sociais. Passar o turno com a internet ligada passou a ser um habituée (o que exasperava algumas pessoas. E às vezes a mim também).

4Assisti a muitos casamentos, acompanhando as noivas na sua ansiedade pré matrimonial de preparativos e muitas dores de cabeça. Fiz parte da Comissão Organizadora de Prendas de Grande Porte que se ocupava em reunir dinheiro para oferecer a noite de núpcias aos noivos; vi nascer muita criança, sobrinhos emprestados que continuo a ver crescer, embora longe; vi namoros começarem e acabarem entre muita choradeira e tristeza; vi dietas iniciadas, interrompidas, reiniciadas; fui ouvinte paciente de muitas confindências e de notícias bombásticas sussurradas em segredo…

5 Tivemos ceias memoráveis compostas de frango assado, batatas fritas, coca colas e doces, muito doces.

Até na copa se assou chouriço em álcool num porco de barro que se deve ter perdido no tempo e nas obras.

Quem nos quisesse ver felizes era à volta de uma mesa, partilhando saborosas iguarias entre conversa e gargalhadas.6

 

 

 

Festas de anos, jantares de Natal, despedidas de solteiras, todas as razões eram boas para festejar em conjunto.

789Com o passar do tempo vieram as festas de anos infantis e, pouco a pouco, as saídas foram começando a rarear, fosse porque a vida não o permitisse entre horários sobrecarregados e sobrepostos, porque os deveres parentais a isso obrigavam ou porque a crise económica o impedisse. Disso tenho saudades… daquelas saídas em conjunto em que se comia até não se poder mais e se ria até às lágrimas, das conversas intermináveis, dos desabafos, da irritação que nos fazia fumegar em conjunto (“não estamos a falar mal, estamos só a desabafar”), das idas ao cinema depois de uma tarde, dos almoços antes de ir trabalhar, daqueles pequeno-almoços intermináveis depois dos turnos da noite. Que saudades do bar, com aquelas torradinhas em pão caseiro ou do pãozinho quente acabado de sair do forno com queijo fresco, do galão ou do sumo de laranja, das empadas de galinha… e da conversa, principalmente da conversa, mesmo aquela ensonada antes de nos dirigirmos para o carro para voltarmos para casa, para ir dormir. 10

Penso que disso guardei o melhor para mim, porque quando volto a Portugal é sempre uma razão para estarmos novamente juntas, tornando-me de novo a ouvinte paciente enquanto todas ventilam a sua irritação à minha volta, rindo de novo até chorar, sabendo das novidades de quem deixei de ver. Pouco a pouco as notícias vão enfranquecendo… é mesmo assim, as distâncias criam as suas regras incontornáveis e dia após dia a nossa realidade vai-nos afastando. Continuamos a falar a mesma língua mas já não nos entendemos tão bem: as private jokes tornaram-se mesmo privadas e perco o fio à meada quando ouço o que se passa; deixei de conhecer algumas enfermeiras porque no último ano muitas que conheci saíram para outros serviços ou outros países, e deixei de perceber o que se passa quando leio alguns comentários nas redes sociais.

DSC_0465Com algumas o contacto mantém-se pois as tecnologias são do melhor que há nestes tempos modernos: Whatsapp, e-mail ou skype, continua a haver um fio condutor que nos une mesmo estando consciente que esse fio poderá enfraquecer. Porque eu já não pertenço ao mundo do IPO e o meu mundo tornou-se distante e algo romântico. Sou a protagonista improvável de aventuras, falando numa língua diferente, se bem que compreensível para todos; sou aquela que deixou o sol procurando algo a mais de 1500km de distância; sou a chefe de equipa que deixou de o ser, para sê-lo novamente numa outra pediatria; sou alguém que passou a ver o Big Ben de forma rotineira mas deixou de ter praias de areia fina ao seu alcance; alguém que deixou de ter torradas e passou a ter scones, que trocou o lanche pelo afternoon tea e os turnos de 8 horas pelos de 12.

Mas espero que saibam que mesmo longe, falando uma outra língua e vivendo uma outra realidade, há momentos que permanecerão muito nossos e nos unem. E que mesmo a mais de 1000km de distância, vivendo numa terra de princípes e princesas em que a rainha tem o mesmo nome que eu, serei sempre uma ouvinte paciente e o meu coração terá sempre um cantinho para todas. E quando voltar a portugal, sempre que voltar, espero ver o vosso sorriso, ouvir a vossa voz e partilhar alguns momentos que fazem da nossa vida aquilo que ela foi/é.

polónia;mónica;relaxamento 100

 

Slipping away…

Goodbye summer

Agosto, para mim, foi sempre o mês do sol e do calor. Penso neste oitavo mês do ano e a minha mente desliza para dias soalheiros por vezes de um calor quase opressivo, que pedem vestidos coloridos de Verão, sandálias ou chinelos, camisolas de alças ou calções; onde as cores vibrantes enchem o olhar e nos transportam para momentos relaxantes. Penso nas abelhas a esvoaçar por entre as flores quando à nossa volta a paisagem é distorcida por ondas vibratórias de calor; penso no canto das cigarras que arranha o ar chamando pela chuva mas que, indelevelmente, lembra sol e calor e penso na vida que parece passar em câmara lenta, longe do trabalho e dos dias atarefados e muitas vezes complicados pelas exigências diárias.

Lunch time (@ Southbank Centre)

Lunch time (@ Southbank Centre)

Penso nas tardes molengonas em que se pára para saborear um sumo de laranja com aquela espuma que indica que foi espremido de fresco, com gelo a tilintar e enfeitado com folhas de hortelã; ou um ice tea gelado que apazigua o calor e sacia a sede.

Sunny morning in London

Fresh orange juice (@ Willesden Green)

Penso em saladas ou fruta fresca saboreada em qualquer local balnear (ou não) e em gelados de textura cremosa que se derretem na boca…

Santini (@ Chiado)

Santini (@ Chiado)

Relembro o mar e o cheiro da maresia. O tempo quente e o marulhar das ondas sugerem férias de Verão e o Dolce faire niente de quem as goza nesta altura. Sem horários nem pressas ou pressões para cumprir obrigações e deveres. Simplesmente estar e aproveitar antes da semana ou quinzena terminar e o regresso à labuta diária afastar de vez a moleza de dias lentos e a simplicidade de prazeres tranquilos. Quase ouço o som das ondas a espraiarem-se na areia e a enrolarem-se em redor de tornozelos bronzeados ou ainda pálidos de quem ainda não sentiu o calor do sol a queimar a pele. Recordo o que é estar deitada na areia granulosa enquanto o mar e as conversas se diluem no ar ainda quente de verão; a minha mente vai buscar lembranças de bolas de Berlim que sabem sempre diferentes num ambiente de sol, água e areia, sem nunca ninguém saber explicar porquê.

Praia da Figueirinha (@ Arrábida)

Praia da Figueirinha (@ Arrábida)

Penso em piqueniques à sombra de árvores frondosas, sentada ou deitada em mantas coloridas; pés descalços em areia fina ou relva macia, o olhar que vagueia pelo mundo apenas saboreando o momento.

Tarde de sol perto de Paddington

Relax time (near Paddington)

Penso nisto tudo, se bem que Agosto nunca tenha sido o meu mês de eleição para tirar férias, mas penso. E penso ainda mais aqui e agora, onde o tempo quente deu já lugar a dias outonais quando o calor ainda devia ser uma presença constante. Os dias continuam longos mas já se percebe que estão a encurtar: às 4 da manhã ainda não é dia e às 22h já é noite. A roupa de Verão foi temporariamente arrumada ou é usada por baixo de casacos, as sandálias e os chinelos deram lugar a sapatos fechados e mais quentes e sente-se já o frio a infiltrar-se na pele.

Sinto, acima de tudo, que já não é Agosto e que o Verão já deixou de o ser. Lentamente, quase sem dar por isso, os dias quentes terminaram e o Verão deslizou para fora do nosso alcance. Nesta altura reconheço o famoso tempo inglês e admito que a volubilidade das estações é muito marcada nesta cidade. Não gosto nem desgosto, é apenas algo a que me tenho de adaptar mas às vezes tenho saudades daqueles dias muito quentes, do sol a queimar e do sal que deixa rastos brancos na pele bronzeada após um dia passado na praia.

Pegadas na areia (@ Carcavelos)

Pegadas na areia (@ Carcavelos)